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Entre 10 e 14 de julho deste mês ocorreu a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). A FLIP é um dos principais festivais literários do Brasil e da América Latina, onde ocorrem palestras, discussões, oficinas literárias e outros eventos para crianças e jovens.

Observando a programação do SESC na FLIP, chamou-nos a atenção o trabalho de Fernanda Paraguassu com a temática do seu livro infantil A menina que abraça o vento – a história de uma refugiada congolesa, da Editora Voo. Ficamos curiosos para saber mais sobre esse trabalho e, enfim, agora temos a honra de compartilhar com você a entrevista que fizemos com ela.

Fernanda Paraguassu é jornalista e, além do livro em questão, é autora também de Buenos Aires com crianças – aventurinhas na terra do dulce de leche, da Pulp Edições. Já escreveu para jornais, revistas, blogs e conteúdo institucional para empresas.

Atualmente Fernanda Paraguassu trabalha com edição de livros. É mestranda em Comunicação e Cultura pela UFRJ e pesquisadora integrante do grupo Diaspotics, que pesquisa aspectos subjetivos da migração transnacional. Mãe do Gabriel e da Manuela, adora aprender com os filhos sobre as novidades em literatura, música, aplicativos e séries de TV.

Vejamos, a seguir, a interessante entrevista sobre o seu livro A menina que abraça o vento e sobre outros assuntos interessantes para quem escreve para crianças.

Capa a menina que abraça o vento

Capa do livro A menina que abraça o vento, Editora Voo.

 

– INÍCIO DA ENTREVISTA –

 

MUNDO ESCRITO: Você participou da programação especial do SESC na Flip 2019. O que essa experiência representou para você?

FERNANDA PARAGUASSU: Participar do evento do Sesc na Flip 2019 foi uma experiência incrível. Teve bate papo sobre a criação do livro mediado pela escritora Ana Paula Lisboa e leitura da história para crianças. Depois, tive a companhia da pedagoga Gisela G. de Carvalho, que realiza um trabalho com crianças do Instituto de Cegos Padre Chico, em São Paulo, e fez uma adaptação do meu livro em braile, com ilustrações táteis. Convidei a Gisela para apresentar seu trabalho na Flip. Não a conhecia pessoalmente. Ela me ligou em fevereiro para falar que gostaria de fazer a adaptação. Acompanhei o processo por WhatsApp e fui me encantando com o que estava sendo criado. Na Flip, Gisela explicou a escolha dos materiais de diferentes texturas e contou sobre a receptividade dos seus alunos. Fiquei muito contente também em saber que a história da menina que abraça o vento vai chegar a mais leitores pelo interior do país pelo projeto de biblioteca volante do Sesc, o Bibliosesc, a maior rede de bibliotecas móveis do Brasil.

A menina que abraça o vento (versão braile)

Adaptação do livro em braile, com ilustrações táteis, por Gisela G. de Carvalho.

ME: Para você, quais as características de um bom livro infantil?

FERNANDA PARAGUASSU: Um bom livro infantil é aquele que traz uma boa história, em que texto e ilustração se complementam. E como identificar uma boa história? É aquela que desperta o interesse na criança, que consegue tocá-la de alguma maneira.

ME: Quais são as obras de literatura infantil que mais te inspiraram?

FERNANDA PARAGUASSU: Tem um livro que me encanta até hoje: Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles. Fala de um tema muitas vezes difícil até para adultos, que é fazer escolhas. “Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva”. Tem que decidir. “Ou isto ou aquilo, vivo escolhendo o dia inteiro”. A vida é realmente feita de escolhas. Desde cedo e para sempre. Mas pode ser muito difícil ter que escolher e bancar as consequências pela opção que fez. Ensinar para uma criança que, às vezes, ela também precisa escolher, e que não se pode ter tudo na vida costuma ser uma tarefa complicada. Brincar ou estudar? Guardar o dinheiro ou comprar o doce? Eu tive esse livro quando era pequena, a edição era de capa branca. Mais tarde comprei uma nova edição para meus filhos, de capa azul. A capa mudou, mas o conteúdo continua o mesmo. A primeira edição é de 1964, mas segue, sem dúvida, muito atual.

ME: Qual a importância de levar temáticas complexas e polêmicas da nossa sociedade para as crianças, através dos livros?

FERNANDA PARAGUASSU: O livro pode ser o ponto de partida para conversas importantes, que ajudam a criança a compreender o mundo em que ela vive. Uma boa história que chega através da literatura pode causar um impacto muito maior em termos de sensibilização para determinadas questões do que cartilhas e livros didáticos. A literatura permite ao leitor entrar na história, abre espaço para a empatia e a alteridade. Blindar a criança de assuntos complexos não é, necessariamente, protegê-la. A falta de informação muitas vezes pode assustar muito mais e gerar sentimentos de angústia e medo. E o medo tende a repelir, distanciar, isolar. No caso do refúgio, a falta de conhecimento sobre o conceito de refugiado nos países de acolhimento é uma das principais causas para a dificuldade de integração dessas pessoas. Há crianças refugiadas que sofrem preconceito e discriminação nas escolas, por exemplo, por falta de informação sobre o que é um refugiado.

ME: Você acredita que a atual produção literária brasileira está ajudando a construir uma consciência mais crítica nas crianças?

FERNANDA PARAGUASSU: Há uma variedade maior de temas disponíveis. Mas a literatura sozinha não constrói uma consciência mais crítica nas crianças. Não adianta os livros ficarem nas prateleiras. É preciso apresentar o livro para a criança. Como apoio, o livro pode ser excelente para estimular o diálogo e a reflexão.

Apresentação da menina que abraça o vento

ME: Como surgiu a história de “A menina que abraça o vento”?

FERNANDA PARAGUASSU: A história foi inspirada em fatos reais. Eu frequentava a sede da Cáritas RJ, que tem um programa de acolhimento de refugiados (PARES), para uma pesquisa sobre mulheres que chegavam na cidade do Rio de Janeiro em busca de refúgio. Enquanto conversava com elas, as crianças brincavam no pátio da casa. Foi observando uma brincadeira que tive a ideia de construir a história. No meu livro, a menina congolesa foge para o Brasil com a mãe e os irmãos para se proteger de conflitos de guerra em seu país. O pai ficou para trás e a menina trata de viver a nova vida aqui, tocando a rotina com a mãe, enquanto lida com a saudade do pai. Um dia, a menina inventa uma brincadeira para tentar superar a dor dessa ausência: é a brincadeira de abraçar o vento.

ME: Por que a escolha do título “A menina que abraça o vento”?

FERNANDA PARAGUASSU: Em “A menina que abraça o vento – a história de uma refugiada congolesa”, a metáfora do vento representa o vazio, a falta, aquilo que não conseguimos ver, mas que, de alguma forma, podemos sentir. Sentimentos são difíceis de descrever. A saudade dói e, muitas vezes, temos vontade de abraçar a pessoa que não está mais ao nosso lado. Na brincadeira do livro, a menina dá um abraço nela mesma, assim como fez a garotinha que observei no pátio da Cáritas. Foi a forma que ela encontrou de lidar com a ausência do pai. A escolha do título veio daí para despertar a curiosidade: Por que ela abraça o vento? Como faz para abraçar o vento?

ME: Você teve alguns cuidados específicos ao escrever para crianças sobre um tema que envolve muito sofrimento, como a questão do refúgio?

FERNANDA PARAGUASSU: Os contos de fada também são cheios de episódios muito tristes, de muito sofrimento, como João e Maria, Bambi, apenas para citar alguns. São uma forma de apresentar o bem e o mal para a criança e ajudá-la a construir mecanismos de processar isso tudo. No caso do meu livro, a historia é baseada em fatos reais. Não podemos fechar o livro e dizer para a criança que “não precisa ficar triste porque é apenas uma história”. Aquilo que está ali acontece de verdade. Então, claro, tem que ser escrita e lida de acordo com a idade e a capacidade de cada criança de absorver momentos difíceis. Tive o cuidado de contar a história de maneira simples, descritiva, sem juízo de valor. Tentei mostrar que ali tem uma menina que, apesar dos momentos difíceis, trata de viver como as outras crianças. Todos passamos por momentos difíceis, como a perda de um parente, de um bichinho ou de um amigo que viajou pra bem longe. E é preciso mostrar que a vida segue. Fiz de uma maneira para deixar esperança no ar e mostrar que a menina tem uma vida inteira pela frente no novo lugar, cheia de possibilidades. Acho interessante quando algumas professoras que trabalham o livro com alunos relatam que fizeram atividades em que as crianças criavam um desfecho para a história. Todas escreveram um final feliz para a menina.

ME: Você trabalha também como jornalista. Como é transitar entre estilos de textos tão diferentes: o jornalístico e o infantil?

FERNANDA PARAGUASSU: Sempre trabalhei com elaboração de conteúdo para diferentes veículos e plataformas, sobre diversos assuntos, como economia, viagens, maternidade… Mais recentemente, no mestrado, comecei a escrever textos acadêmicos, que têm ainda outro estilo. Acho que escrever tem uma boa dose de prática. E outra dose de criatividade para contar uma boa história!

ME: Como escritora de literatura infantil, você tem algumas dicas, rituais, segredos, técnicas que possa dividir conosco?

FERNANDA PARAGUASSU: Esse é o meu primeiro livro de literatura infantil. Não tenho rituais nem desenvolvi técnicas. Busquei ser clara e objetiva. Acho que a única dica que teria é: leia bastante. Sempre li muitos livros infantis. Até hoje gosto de conhecer as novidades do mercado editorial para crianças.

ME: Como é o seu processo de revisão? Você passa o texto para algumas crianças lerem antes de enviar à editora?

FERNANDA PARAGUASSU: Mostrei o texto para meus filhos, que foram meus primeiros críticos literários. Depois passei para alguns amigos. O passo seguinte foi levar para a equipe da Cáritas RJ, que gostou da história e apoiou a publicação. Então fui buscar uma editora e encontrei a Editora Voo, que tem um projeto de contrapartida social – Um por Um –, em que, para cada livro vendido, parte da renda vai para o programa de refugiados (PARES) da Cáritas RJ. A Voo foi fantástica durante todo o processo e escolheu a Suryara Bernardi para fazer as ilustrações. Fiquei apaixonada pelo trabalho da Suryara, que foi também muito parceira na construção do livro.  

ME: Como escrever um texto que seja de fácil compreensão para as crianças, mas não caia em uma linguagem didática ou cheia de obviedades?

FERNANDA PARAGUASSU: Acho que não podemos subestimar a capacidade de reflexão da criança. Uma coisa é escrever de forma clara e simples, outra é ser superficial. A diferença está no tipo de mensagem que você pretende passar. É importante apresentar desafios, fazer a criança pensar. A metáfora do vento teve um pouco esse papel. Por isso, a mediação é muito importante. Ler um livro para uma criança é também responder algumas perguntas. Ou devolvê-las e ajudar a criança a encontrar a resposta sozinha.  

ME: Com uma geração de crianças extremamente ligadas em novas tecnologias e familiarizadas com o estilo de texto das redes sociais, qual é o futuro do livro infantil?

FERNANDA PARAGUASSU: Uma coisa é o formato e a outra é o conteúdo. Você pode ter um bom livro em formato digital, resultado do que a nova tecnologia pode proporcionar. Mas acostumar uma criança a apenas um estilo de texto, curto, com palavras abreviadas, como o das redes sociais, não é o melhor caminho para ensiná-la a desenvolver um raciocínio mais elaborado sobre determinados temas. É preciso continuar apresentando boas histórias para as crianças, textos bem escritos. Não é o caso de colocar um estilo de texto no papel de vilão. Até porque a ideia não é deslocar a criança do que sua geração vivencia. É o caso de enriquecer esse processo. E os livros têm um importante papel nisso.

 

– FIM DA ENTREVISTA –

 

E você, o que achou desse trabalho da Fernanda Paraguassu? Ficou também inspirado como nós? Conte-nos aí nos comentários. É graças a trabalhos como esse que a nossa Literatura vem ganhando cada vez mais vida, corpo, voz, personalidade e encanto.

Nós, da Mundo Escrito, incentivamos a literatura que tem como fim melhorar a vida do ser humano, fazer de cada livro uma experiência única. Viva a nossa Literatura!!!

 

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