É com grande entusiasmo que hoje voltamos com mais uma honrosa entrevista. Estamos falando do nacionalmente respeitável linguista Carlos Alberto Faraco. Para que a entrevista ficasse mais visível, sua biografia[i] acadêmico-literária completa foi exposta em nota de fim.

Nesta segunda entrevista da série “Referenciais da Linguística no Brasil”, Faraco fala das reais atribuições de um revisor de texto e dos problemas que podem advir quando tais atribuições são extrapoladas; explica sobre o aparente conflito entre gramáticos e linguistas; fala sobre como deveria ser o modelo ideal da gramática para as escolas; expõe a causa da dificuldade do ensino e da aprendizagem da nossa língua – e muito mais!

– Início da entrevista –

MUNDO ESCRITO: Quando lidando com documentos formais (p. ex. acadêmicos, legais), o revisor de textos tem a obrigação e os meios de zelar pelo uso da escrita na norma culta padrão? Ou deveria também recorrer à norma culta brasileira contemporânea?

CARLOS ALBERTO FARACO: Antes de tudo, não cabe ao revisor decidir nada pelo autor. O revisor só deve intervir num texto depois de consultar se o autor concorda com eventuais mudanças propostas. Tenho tido conflitos com revisores em razão disso. Há, infelizmente, revisores que desrespeitam o autor. Uma mentalidade às vezes muito autoritária. Hoje, quando entrego um texto para publicação, já aviso que não admito intervenção no meu texto. Quanto a seguir a norma padrão ou a norma culta brasileira contemporânea, cabe consultar sempre o autor. Se este quer ser conservador em sua expressão, o revisor deve apresentar suas sugestões de revisão com base na norma padrão; se o autor quer uma expressão mais condizente com a norma culta brasileira contemporânea, é por aí que devem seguir as sugestões de revisão. Meu mote tem sido: todos têm direito de ser conservadores na sua expressão; ninguém, porém, tem direito de impor suas preferências conservadoras.

ME: Quais danos podem advir de um revisor de textos que se atenha apenas à gramática tradicional?

CARLOS ALBERTO FARACO: Primeiro, o desrespeito ao autor, caso este prefira uma expressão menos conservadora. E, segundo, a intervenção do revisor, sem consulta ao autor, pode redundar numa perda de vitalidade da expressão escrita. Insistir em regras anacrônicas pode bloquear a entrada na língua escrita de inovações já consolidadas na fala ou de características próprias do português brasileiro culto.

ME: Qual a importância e o verdadeiro papel do Revisor Textual ou Linguístico?

CARLOS ALBERTO FARACO: O papel do revisor é detectar eventuais problemas de ordem textual (por exemplo, falta de clareza ou de coerência ou de coesão), ortográfica ou morfossintática. Seu trabalho é, sem dúvida, importante, principalmente numa sociedade pouco letrada e com graves deficiências educacionais como a nossa. No entanto, não cabe ao revisor intervir no texto sem prévia consulta ao autor. Já vivenciei situações de intervenções indevidas e sem consulta prévia; de tentativas de imposição de alternativas às minhas preferências expressivas. E isso é inadmissível. Por isso, hoje recuso revisão dos meus textos. 

ME: Linguistas e gramáticos disputam território ou seus espaços são ocupados idealmente no universo da língua portuguesa brasileira?

CARLOS ALBERTO FARACO: Em geral, entende-se que o gramático é normativo e o linguista não o é porque a ciência não é normativa. Em decorrência disso, criou-se uma ideia de que linguistas e gramáticos estão em conflito. Mas isso é falso. Um gramático que estipule regras normativas sem uma prévia e boa descrição da língua é um mau gramático. Para darmos crédito a um gramático, é preciso que ele seja, antes de tudo, um bom linguista. Ou seja, um analista da língua. Se seu objetivo é apresentar regras normativas, é fundamental que ele pesquise sistematicamente o uso culto corrente. De outro modo, estará fazendo ficção e não merece crédito. Há um princípio que se repete sempre: a gramática normativa depende da gramática descritiva (ou seja, é preciso que se normatize com base em boas descrições dos usos cultos); já a gramática descritiva não depende da gramática normativa (o trabalho descritivo abrange todas as manifestações da língua e não apenas os usos cultos).

ME: Na sua opinião, qual seria o modelo ideal de gramática da língua portuguesa a ser ensinada nas escolas brasileiras?

CARLOS ALBERTO FARACO: Um modelo realista (apresentar os usos cultos correntes) e honesto (não inventar regras e não querer esconder a realidade linguística). Por outro lado, o estudo gramatical na escola não deve se reduzir às questões normativas. O funcionamento gramatical da língua deve também ser matéria de prática do pensamento científico: aprender a observar e descrever os fenômenos da língua corrente em suas muitas variedades.

ME: Se um revisor de textos estiver trabalhando num livro a ser publicado nacionalmente e o autor, sendo um sulista, utiliza com frequência termos conhecidos apenas no sul do país, o revisor deve alertar o autor sobre a utilização do termo estritamente regional? Ou deveria deixar passar, já que hoje a internet facilita o acesso ao significado de tais termos?

CARLOS ALBERTO FARACO: Depende da situação. Se for um livro de literatura, o texto é intocável. Nem precisa consultar o autor. Se for um livro técnico ou de divulgação científica ou ensaístico, cabe sempre consultar o autor.

ME: O que verdadeiramente dificulta o ensino e a aprendizagem da nossa língua como um todo?

CARLOS ALBERTO FARACO: Falta uma compreensão social e no interior do sistema educacional dos reais objetivos do ensino de língua. O domínio das práticas de oralidade, leitura e escrita deveriam ocupar o centro das nossas preocupações. O estudo gramatical deve ser apenas auxiliar, como, aliás, já recomendava o grande educador romano Marco Fábio Quintiliano, no século I da nossa era (há dois mil anos, portanto) em seu livro Instituição Oratória.

ME: Como o gramático, o linguista e o filólogo contribuem nas pesquisas e no ensino da língua portuguesa no Brasil?

CARLOS ALBERTO FARACO: Os filólogos têm um importante papel na fixação dos textos da nossa tradição literária e mesmo na organização dos dicionários.  Os linguistas têm se dedicado a descrever a realidade linguística nacional, mostrando como a língua portuguesa se dá, de fato, no Brasil. Os gramáticos, porém, têm um grande débito ainda. Deveriam contribuir com manuais normativos realistas e honestos, mas continuam reproduzindo acriticamente uma tradição que foi mal fixada e não se dedicam à descrição sistemática da língua culta escrita. O Brasil, infelizmente, ainda está imerso num imbróglio normativo e isso prejudica muito nossas relações com a nossa língua.

ME: Uma de nossas revisoras é professora dos ensinos fundamental e médio na rede pública. Ela diz que seguidamente escuta de seus alunos: “por que aprender análise sintática se nunca vou usar isso na vida?”. Como o professor deveria reagir numa situação como essa?

CARLOS ALBERTO FARACO: Concordar com o aluno. Se ele disse isso é porque a análise está sendo feita no vazio. A análise pela análise. A discussão da sintaxe só faz sentido em correlação com a leitura e a produção (e refacção) de textos. O aluno precisa sentir na prática a relevância de estudar a sintaxe como meio para aprimorar sua expressão escrita.

ME: Qual a sua opinião sobre o acordo ortográfico e a recepção dos outros países. Valeu a pena ou foi apenas estabelecimento de poder brasileiro sobre a língua portuguesa?

CARLOS ALBERTO FARACO: O Acordo Ortográfico foi uma tentativa de unificar as bases da ortografia da língua portuguesa. Foi, portanto, positivo porque uma língua internacional como o português encontra barreiras à sua promoção se tem a ortografia mal resolvida. Nas negociações para se chegar ao Acordo, houve concessões das duas partes envolvidas (ortografia brasileira e ortografia lusitana). Nesse sentido, não se pode dizer que tenha sido uma imposição brasileira. O Acordo Ortográfico está em pleno vigor no Brasil e em Portugal. Está em fase de implantação em Cabo Verde, Timor Leste, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Não foi ainda ratificado por Moçambique e Angola. Em Moçambique, o Conselho de Ministros já recomendou ao Parlamento sua ratificação e o país já elaborou seu Vocabulário Ortográfico Nacional. Em Angola, há ainda estudos sobre como aplicar o Acordo, estudos que são considerados lá como preliminares à ratificação. O Acordo previa a elaboração de um Vocabulário Ortográfico Comum (VOC). Ele foi lançado oficialmente em maio de 2017 contendo os Vocabulários Ortográficos Nacionais de Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, Timor Leste. Neste ano de 2018, o VOC incorporou o Vocabulário Ortográfico Nacional de São Tomé e Príncipe. Pode ser consultado na página do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no endereço www.iilp.cplp.org.

– Fim da Entrevista –

Gostou da entrevista? Por favor, fique à vontade para comentar e expor a sua opinião. Sua colaboração também é muito importante!

No dia 20 do mês passado tivemos também a honra de entrevistar outro grande linguista, o Professor Marcos Bagno, autor do livro Preconceito Linguístico. Acesse aqui a entrevista.

[i] Carlos Alberto Faraco possui graduação em Letras Português/Inglês pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1972), mestrado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (1978) e doutorado em Linguística – University of Salford (1982). Fez pós-doutorado em Linguística na University of California (1995-96). É Professor Titular (aposentado) da Universidade Federal do Paraná. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Linguística Aplicada, atuando principalmente nos seguintes temas: Bakhtin, discurso, dialogismo, ensino de português e linguística, história do pensamento linguístico. Está vinculado ao Grupo de Pesquisa HGEL- Historiografia, Gramática e Ensino de Línguas (UFPB/CNPq) – Texto extraído do seu currículo no CNPq.

Livros do autor: Uma introdução a Bakhtin (1988) / Linguística Histórica: uma introdução ao estudo da história das línguas (1991) / Prática de texto (com Cristovão Tezza) (1992) / Escrita e alfabetização (1992) / Trabalhando Com Narrativa (1992) / Diálogos com Bakhtin (1996) / Oficina de texto (com Cristovão Tezza) (1998) / Estrangeirismos: guerras em torno da língua (2001) / Língua portuguesa: prática de redação para estudantes (com D. Mandryk, 2001) / Linguagem e diálogo: as ideias linguísticas do círculo de Bakhtin (2003) / Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós (2008) / Linguagem Escrita e Alfabetização (2012) / Gramáticas Brasileiras: com a palavra, os leitores (2016, org. com Francisco Eduardo Vieira) / História Sociopolítica da Língua Portuguesa (2016).

 

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