Em 2018, Carlos Alberto Faraco concedeu uma entrevista à Mundo Escrito em que conversamos sobre revisão, autoria, norma linguística e ensino de português. Oito anos depois, muita coisa mudou no modo como os textos são produzidos, revistos e postos em circulação. A relação entre chatbots e língua portuguesa passou a envolver questões de autoria, pensamento, ensino e diversidade linguística que ultrapassam em muito o funcionamento da tecnologia.

Foi nesse novo contexto que voltamos a conversar com Faraco. Desta vez, partimos de temas que atravessam seu trabalho há décadas como linguista para pensar o que a presença dessas ferramentas acrescenta, desloca ou torna mais urgente em nossa relação com a escrita e com a linguagem. A entrevista que segue nasce desse reencontro, oito anos depois da primeira conversa.

 

– Início da entrevista –

 

Mundo Escrito (ME): Professor Faraco, muito se diz que os chatbots “escrevem”, “respondem” e até “conversam”. De um ponto de vista linguístico — especialmente com base em uma concepção dialógica da linguagem —, é possível afirmar que um chatbot produz enunciados? Ou ele apenas simula formas de enunciação sem ocupar verdadeiramente uma posição de sujeito?

Carlos Alberto Faraco: Os chatbots apenas simulam uma dinâmica dialógica. E simulam com perfídia, porque tem todas as características formais de uma comunicação face a face. Sabemos que o formato engana muitos usuários. Falta, no entanto, agentividade e responsabilidade enunciativa ao pretenso enunciador, que não ocupa, de fato, uma posição de sujeito.

ME: Na entrevista que fizemos recentemente com o escritor português Pedro Silva, apareceu uma formulação relevante: a ausência de pensamento levaria à anulação do ser humano. O senhor concorda que os chatbots representam uma ameaça em razão dos erros que cometem e da possibilidade de nos habituarmos a terceirizar o ato de pensar? O que, na relação entre linguagem e pensamento, é intransferivelmente humano?

Faraco: A máquina nos seduz para a terceirização. Ela oferece, em frações de segundos, um produto relativamente bem acabado e, desse modo, aparenta nos livrar do peso do trabalho que a escrita exige de nós. No entanto, ela não passa de uma escrita requentada, cheia de lugares comuns e, por falta de automonitoração, com erros. O agente humano também erra, evidentemente, mas a automonitoração e o confronto dialógico permitem superar criticamente o erro. Por outro lado, o pensamento humano inova precisamente ao explorar a diversidade dos discursos sociais, aproximando-os ou confrontando-os. Esse processo é intransferivelmente humano e fundamento de nossos processos criativos.

 

Chatbots e língua portuguesa: norma, variação e diversidade

 

ME: O senhor já escreveu e falou muito sobre a norma culta, a norma-padrão e os equívocos normativos no Brasil. Os chatbots tendem a produzir uma escrita muito “corrigida”, homogênea, polida e, às vezes, artificialmente neutra. Há o risco de essas ferramentas reforçarem uma ideia empobrecida de “bom português”, apagando variação, estilo, regionalidade, oralidade e vitalidade expressiva?

Faraco: Escrevi recentemente um texto, ainda não publicado, em que apontei exatamente esse processo de pasteurização da diversidade estilística. A máquina não tem sensibilidade linguística. É incapaz, portanto, de explorar estilisticamente a variação, a diversidade lexical e as potencialidades expressivas das estruturas da língua. Seus produtos são escritos numa língua de tal forma pasteurizada e uniformizada que a própria ideia de uma norma de referência em meio à diversidade linguística parece perder o sentido – ela já está dada, sem exterioridade e sem vitalidade. Sem dúvida, há uma perda enorme aí, reforçando uma ideia bem empobrecida de “bom português”.

ME: Se a língua vive da interação social, da heterogeneidade e do contato entre vozes, como interpretar uma tecnologia que produz textos com base em enormes massas de discursos já existentes? O chatbot seria um novo participante do jogo discursivo? Se não o for, o que seria ele?

Faraco: A máquina finge ser um novo participante do jogo discursivo. Mas, no fundo, não passa de uma sofisticada estação repetidora. O jogo discursivo envolve o que Bakhtin chamava de heteroglossia dialogizada, ou seja, o confronto permanente e infindo dos discursos sociais. A máquina não tem recursos para participar, efetivamente, dessa dinâmica dialógica.  

ME: Em 2018, na primeira entrevista à Mundo Escrito, o senhor afirmou que o revisor não deve decidir pelo autor nem impor suas preferências. Hoje, com ferramentas que revisam, reescrevem e “melhoram” textos automaticamente, como preservar a autoria? Em que momento esse tipo de assistência deixa de ser apoio e passa a ser substituição da voz do autor?

Faraco: Se você terceiriza o ato de escrita, não há como preservar a autoria. A máquina faz por você. Autorar é deslocar-se entre posições enunciativas, respondendo ao já-dito e retrabalhando o já-dito a partir de outro ponto de observação. Nada disso a máquina faz. Ela apenas requenta o já-dito.

 

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O uso de chatbots na escola

 

ME: Na escola, muitos defendem que os alunos aprendam a usar chatbots “com responsabilidade”. No entanto, em aulas de Língua Portuguesa, justamente o processo de errar, reformular, argumentar, escolher palavras e construir uma voz é parte essencial da aprendizagem. Como a escola pode incorporar essas ferramentas sem transformar a escrita em mera gestão de comandos?

Faraco: Uma das práticas pedagógicas desenvolvidas nas últimas décadas para alcançar o domínio maduro e autônomo da escrita é a chamada análise linguística. No fundo, é uma atividade de oficina: escrever e, na sequência, monitorar em grupo o produto de modo a aperfeiçoá-lo. Fui praticante da análise linguística em meus cursos de produção de texto e observei ótimos resultados. A escola não deveria abrir mão dessa prática, mas poderia incluir a máquina como recurso auxiliar, ou seja, incluir no processo analítico eventuais reescritas dos textos para comparar com os resultados alcançados sem ela. O confronto possivelmente mostrará aspectos interessantes a serem aproveitados, mas também mostrará os limites da máquina.

ME: O senhor costuma defender uma pedagogia da língua menos autoritária, mais ligada às práticas reais de leitura, escrita e oralidade. Os chatbots podem ajudar nesse projeto, oferecendo comparação de versões, análise de gêneros e experimentação textual? Ou tendem a reforçar uma pedagogia ainda mais instrumental, voltada para respostas rápidas, fórmulas e padronização?

Faraco: A máquina, como tal, reforça uma pedagogia instrumental. Como disse na resposta anterior, podemos pô-la a nosso serviço. Mas o princípio básico é não transferir a ela as atividades. Já não estou em sala de aula. No entanto, trabalho com meus netos a produção de textos. Eles, algumas vezes, trazem o texto feito pela máquina. Aí, desenvolvo com eles uma prática de análise linguística desse texto, mostrando os limites da máquina, o modelão inexpressivo que a máquina oferece, a pasteurização da expressão. Essas atividades contrastivas dão bom resultado no sentido de não valorizar demais a máquina.

ME: Há uma diferença decisiva entre produzir um texto e responsabilizar-se por ele. Na cultura dos chatbots, quem responde pelo enunciado: a máquina, o usuário, a empresa que treinou o modelo ou a instituição que autorizou o uso? Como a linguística pode nos ajudar a recolocar a responsabilidade no centro da linguagem?

Faraco: Quem responde pelo enunciado nos chatbots? Percebo uma fluidez absoluta nessa questão. Não identifico ainda uma perspectiva que a elucide. Há uma preocupação em avaliar se o texto saiu ou não da máquina. Mas também aí não identifico recursos avaliativos certeiros e confiáveis. Temos de desenvolver uma cultura de permanente suspeição diante do que a máquina nos dá. Resistir à sedução. Acredito que a linguística, ao dar visibilidade aos processos de enunciação e significação, pode trazer contribuições importantes para consolidarmos a cultura da suspeição a que me refiro.

ME: Os grandes modelos de linguagem são treinados com corpora imensos, muitas vezes complexos, marcados por desigualdades de acesso, prestígio e representação. Que português brasileiro esses sistemas aprendem? Que vozes entram nesses modelos e quais ficam fora? O que isso pode significar para uma sociedade linguisticamente desigual como a nossa?

Faraco: Ao que tudo indica, os corpora selecionados são os que não provocam reações sociais de nenhuma natureza. Há uma filtragem que sugere pretensa neutralidade conteudística e reproduz uma versão pasteurizada da língua. Há um claro apagamento da diversidade. Silenciam-se as divergências. Tudo isso reforça a desigualdade e a exclusão.

ME: Se o senhor pudesse propor uma espécie de princípio ético-linguístico para o uso de chatbots na escrita, na escola, na universidade e no mercado editorial, qual seria? Em outras palavras: que pacto deveríamos fazer para que essas tecnologias ampliem nossas capacidades sem empobrecer nossa relação com a linguagem, com o pensamento e uns com os outros?

Faraco: Ando muito pessimista quanto à possibilidade de alcançarmos um pacto ético nessa esfera. Percebo um conforto excessivo na terceirização. Talvez esteja exagerando na minha atual avaliação. O futuro dirá. De qualquer forma, sou cioso da minha autonomia intelectual e acredito, talvez ingenuamente, que podemos estimular um debate social que valorize precisamente a autonomia intelectual, em especial entre as gerações mais jovens.

 

Responsabilidade, desigualdade e autonomia intelectual

 

ME: Professor, no lançamento do seu livro mais recente, “O linguista e sua caixa de ferramentas”, que reúne décadas das suas reflexões sobre ensino, norma e a história sociopolítica da nossa língua, o senhor introduziu espontaneamente o tema da Inteligência Artificial (IA) ao falar sobre produção textual. Na ocasião, o senhor alertou que as pessoas estão transferindo a escrita para a máquina com muita facilidade e afirmou que quem mantiver a autonomia da escrita “vai ser rei em terra de cego”. Comparando a IA a uma calculadora, o senhor ressaltou que é preciso ser o “senhor do conhecimento”, e não alguém que se entrega à máquina. Pensando nessa obra que acaba de ser lançada, quais das ferramentas conceituais e sociolinguísticas presentes na sua “caixa” são hoje as mais urgentes para equipar professores e alunos nessa resistência? Como a compreensão da nossa realidade linguística — que o livro tão bem consolida — pode nos ajudar a manter o domínio sobre o texto e o pensamento diante do avanço das IAs?

Faraco: Acredito que um conjunto conceitual que ponha a heterogeneidade linguístico-discursiva no centro de nossa compreensão da linguagem e dos espaços de escolha que temos no interior dessa heterogeneidade pode contribuir para mantermos nossa autonomia intelectual e, portanto, nosso domínio sobre o texto e a vitalidade do nosso pensamento. Bakhtin defendia a importância de nos emanciparmos da língua-prisão, do discurso que nos quer submissos. Emanciparmos pelo mergulho na dinâmica da heteroglossia dialogizada. A língua que nos vem pela máquina, uniformizada e pasteurizada, é uma língua-prisão que nos obriga a dizer do seu modo. O desafio bakhtiniano da emancipação continua, portanto, muito vivo.

 

– Fim da entrevista –

 

CARLOS ALBERTO FARACO é Professor Emérito da Universidade Federal do Paraná, onde lecionou Linguística e Língua Portuguesa. Doutorou-se em Linguística Românica na Inglaterra e fez pós-doutorado na University of California. Presidiu a Associação Brasileira de Linguística (1985/1987). Foi reitor da UFPR (1990/1994). Coordenou a Comissão do Brasil junto ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (2014/2018). Publicou, com Ana Maria Zilles, Para conhecer norma linguística. Com Francisco Eduardo Vieira, organizou a coletânea Gramáticas brasileiras: com a palavra os leitores e coautorou a coleção Escrever na Universidade e a Gramática do Português Brasileiro Escrito, finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico de 2024. Entre seus vários livros monoautorais, está História sociopolítica da língua portuguesa, que recebeu, em 2016, o Prêmio Antenor Nascentes, da Academia Brasileira de Filologia. Acaba de lançar O linguista e sua caixa de ferramentas.

Faraco encerra esta conversa com uma imagem bem inquietante: a língua da máquina como uma “língua-prisão”.

Que tal levarmos essa discussão para os comentários? A questão é esta:

“Em que momento o uso de um chatbot deixa de ampliar nossa capacidade de escrever e começa a reduzir nossa autonomia intelectual?”

Se você ensina, pesquisa, escreve, revisa ou orienta, responda: em que momento essa fronteira aparece? Porém, se você acha que ela não existe, conte-nos por quê.

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