Alguns escritores permanecem. Passam por fases difíceis do mercado editorial, veem as regras mudar, lidam com a indiferença que muitas vezes cerca a vida literária e continuam escrevendo. Pedro Silva, escritor português e historiador de formação, é um desses autores. Sua relação com a escrita não parece circunstancial. Nasce de muitos anos de pesquisa, memória e diálogo com leitores de língua portuguesa.

Esta entrevista nasceu de um contato simples, motivado pelo interesse de aproximação literária. Ela traz a voz de alguém que conhece, por experiência própria, o trabalho longo e exigente de manter uma vida ligada aos livros. Na trajetória de Pedro Silva, a literatura aparece como ofício, permanência e escolha.

É desse lugar que ele fala na entrevista a seguir.

 

– INÍCIO DA ENTREVISTA –

 

Mundo Escrito (ME): O primeiro contato do senhor com a Mundo Escrito veio por meio de uma mensagem sobre algo muito presente hoje: a dificuldade que sentimos de criar aproximações humanas espontâneas num ambiente em que há desconfiança, golpes virtuais, respostas automáticas e abordagens que nem sempre parecem querer conversa de verdade. Esse clima de desconfiança nas relações também muda o modo como o senhor vê a literatura e o trabalho de quem escreve atualmente?

Pedro Silva: Na verdade, se há algo em que a estranheza possa ser, de algum modo, “positiva” é exactamente para a criação literária. O desconforto, o chamado “murro no estômago” tem sido o alimento primordial da melhor literatura desde os primórdios. Ora, todas as alterações societárias dos últimos tempos, plasmadas nos perfis humanos, não me parecem, de todo, capazes de influenciar a capacidade dos autores: se, como escreveu Fernando Pessoa, todo o poeta é um fingidor, então o mundo da ficção é o enredo ideal para quem compõe o mundo do “faz de conta”. Aliás, é aqui conveniente frisar o seguinte: é fundamental a destrinça entre a Obra e o Autor. Para além de eu sempre ter defendido que a “estrela” da Literatura é a Obra e não quem a escreve, temos, ademais, de inferir que o perfil sociológico de um autor (isto é, o que vulgarmente designamos por “feitio”) passa por ser irrelevante perante uma Obra-Prima. Nós, creio eu, não queremos entrar no cérebro do autor; pelo contrário, nós pretendemos viver o mundo por ele criado nas suas produções literárias.

 

ME: O senhor tem uma trajetória extensa, com dezenas de obras publicadas, reedições, traduções e circulação em diferentes países. Olhando para trás, como esse caminho foi se formando? Houve um projeto literário claro desde o início ou a obra foi se formando por etapas, oportunidades, insistência e descobertas?

Pedro Silva: Tendo em conta que, logo aos 7 anos de idade, decidi que queria ser Escritor, assumo que era difícil ter um plano/projecto delineado enquanto criança. Apenas sabia que era o meu sonho. Paulatinamente, à medida que mais portas se foram abrindo, a dimensão sonhada ia crescendo, mas sempre com os pés bem assentes na terra. Tal como – imagino – qualquer escritor dirá, esta é uma actividade repleta de dificuldades, até porque com o advento das editoras de impressão sob demanda e das “vanity press”, publicar um livro passou a ser, não uma questão de mérito/qualidade/critério, mas apenas uma transacção comercial. A ilusão do Escritor, na visão romântica ancestral, encontra-se extremamente esbatida, para minha grande tristeza. Para aqui chegar, tive de enfrentar 30 anos de duras etapas, insistência sem fim, oportunidades não desperdiçadas (incluindo aquelas completamente desengraçadas aos olhos de quem só procura bens materiais) e, no mínimo, sinto que todos aqueles que sonham em publicar um livro deveriam percorrer a mesma via-sacra para, no final, sentir que o sabor de publicar um livro é inexcedivelmente melhor do que passar um cheque e mandar imprimir as páginas de um texto. É a mesma diferença que entre conquistar uma Mulher que será o amor da nossa vida ou ir a uma esquina e despejar um par de notas em troca de carícias rápidas e efémeras.

 

ME: Em sua produção aparecem com frequência temas históricos, religiosos, místicos, templários e lusófonos. O que o atrai tanto para esses assuntos? Há neles uma busca por conhecimento histórico, por identidade cultural, por espiritualidade ou por algo que não cabe bem nessas categorias?

Pedro Silva: Uma pergunta muitíssimo interessante, sem dúvida (tal como todas as outras). Sinto que cada autor procura algo toda a vida. Ao mesmo tempo, acredito que, com o tempo, os autores vão procurando temas nos quais se sintam mais à-vontade. No meu caso, pelo contrário, sinto que tudo sucedeu um pouco aleatoriamente: foi uma questão de sobrevivência literária e de aproveitar as oportunidades. Durante quase vinte anos, senti uma necessidade (que hoje vejo como desnecessária) de comprovar, aos olhos dos demais, que eu existia enquanto autor. Para tal, essa verificação de qualidade seria através da publicação de títulos, em múltiplos temas, em várias editoras, países, etc., numa tentativa de demonstrar que as primeiras obras não haviam sido nem “sorte”, nem “benefício de algo ou alguém”. Tudo isto somado, levou a que, hoje em dia, sejam 100 título distribuídos por várias edições. Assumo que, em retrospectiva, hoje – se voltasse atrás no tempo – teria sido menos exigente comigo e bem mais parcimonioso na selecção das publicações.

 

ME: Ao tratar de temas cercados de símbolos, crenças, mitos e especulações, como Templários, maçonaria, cristianismo, heresias e mistérios da História, como o senhor costuma traçar o limite entre investigação histórica, interpretação ensaística e imaginação literária?

Pedro Silva: Acima de tudo, sirvo-me de: formação académica (sou Historiador), a qual nos dá as ferramentas teóricas para “separar o trigo do joio”, e, a par disso, compete-me ter a capacidade de discernimento para – como bem refere – saber traçar os limites. É um facto que iniciei a minha carreira literária como aspirante a escritor, redigindo pequenos contos, mas rapidamente me transformei em ensaísta e, ao fim de 30 anos de actividade, a práxis redaccional torna-se uma segunda pele.

 

ME: Escrever tantos livros exige pesquisa, disciplina e persistência. Como é o seu processo de trabalho? O senhor costuma partir de arquivos, anotações, leituras e planejamento prévio, ou cada obra acaba pedindo o seu próprio método?

Pedro Silva: No meu caso, ainda que com naturais evoluções (pois o Homem é um ser em constante mutação e construção), tenho mantido, mutatis mutandis, sempre o mesmo método, até porque acredito que tem dado frutos. Basicamente, há inevitavelmente um plano prévio, que inclui pesquisa, muita leitura e extensas anotações, que se tornam a base do futuro trabalho. Recorde-se que comecei a escrever, com fito de publicar, já em 1993, muito longe do período da Internet, pelo que tudo era pesquisa em bibliotecas e livrarias, sendo o livro a única fonte. Vem daí o meu hábito primordial de trabalhar com obras scripto. Certo que, hoje em dia, já efectuo algumas consultas online, mormente sobre temas secundários, mas o livro mantém-se como fonte primária.

 

ME: Depois de tantas publicações, reedições e traduções, que importância o senhor atribui ao trabalho editorial que vem depois da escrita inicial — revisão, preparação, edição, tradução, escolha de título, apresentação gráfica e diálogo com editoras?

Pedro Silva: Um Livro é, na sua essência, uma Obra de Arte. E, como todas as peças artísticas, sofre o efeito, directo e indirecto, de múltiplos actores profissionais: incluindo os que referiu, mormente revisores, editores, designers, etc. Conquanto o Escritor seja, sem sombra de dúvidas, a figura primícia, a verdade é que, tal como numa equipa desportiva, ninguém consegue nada sozinho. E, felizmente, sempre tive a sorte de ter, ao meu lado, os melhores profissionais, apaixonados pelo que fazem e motivados pelo Livros enquanto objecto artístico.

 

ME: Muitos leitores da Mundo Escrito são escritores ou autores em formação. Para quem deseja construir uma vida literária consistente e resiliente, que recomendação o senhor considera mais importante?

Pedro Silva: Se há algo que aprendi ao longo destas três décadas é que, independentemente dos momentos menos positivos, sempre surgirá uma aurora. E é, nesse momento luminoso, que temos de retemperar as nossas energias para confiar no nosso potencial. Convenhamos: nenhum escritor estará sempre no auge. Pior: alguns nunca estarão no auge. No entanto, se amarmos o que fazemos, e o fizermos de alma e coração, a nossa maior recompensa será a sensação de termos conseguido dar o melhor de nós mesmos. O aplauso dos outros será, apenas, uma bela consequência, um extra apetecível, mas não indispensável. Agora, há uma dica que, sempre tomei para mim, e que não me canso de transmitir a quem queira aceitar: ninguém será escritor sem, antes, ter sido leitor. Portanto, leiam sempre – essa é a principal formação de um escritor.

 

ME: Há um lado pouco romântico, mas muito real, na vida de quem escreve: o retorno financeiro. Em sua experiência, como equilibrar vocação literária, persistência intelectual, reconhecimento simbólico e retorno material?

Pedro Silva: A premissa estará sempre errada se um escritor iniciar a sua carreira tendo como fito o retorno financeiro. Nesse caso, esta não é a sua profissão. Em primeiro lugar, vocação literária. A existir, então utilize-se de persistência literária. Com o tempo, poderá advir o reconhecimento simbólico (aquele que, sem sombra de dúvida, é o maior meritoso, por ser eterno e inexpugnável). Se, de forma paralela, ocorrer retorno material, o escritor poder-se-á considerar afortunado. No entanto, o escritor, na sua pura essência, terá de ser sempre um romântico – a faceta real ou material, lamentavelmente, tê-la-á de buscar em uma actividade profissional paralela.

 

ME: O senhor publicou em Portugal, no Brasil e em outros espaços ligados à língua portuguesa. Como vê hoje a circulação de autores lusófonos entre esses países? Ainda há uma distância grande entre os nossos mercados editoriais ou a língua comum tem sido, de fato, uma ponte?

Pedro Silva: Fui um dos primeiros escritores portugueses, da geração contemporânea, a ser publicado no Brasil, no século XXI. Numa fase em que tal era muitíssimo complicado – vivia-se um momento de intenso debate sobre as diferenças linguísticas entre a Língua Portuguesa falada (e escrita) em ambos os países. Consegui ultrapassar barreiras, criar público e criar vínculos imorredouros. A razão? Nunca tentei impor nada aos leitores brasileiros: cada um é rei na sua terra. O Novo Acordo Ortográfico tentou impor algo (podem chamar-lhe “unificar”, “modernizar”, “limar arestas”) e, pelo que vejo, não houve qualquer alteração positiva em termos de trocas literárias: vejamos, as diferenças entre autores portugueses, brasileiros, africanos, etc., não se verificam apenas ao nível ortográfico. Cada qual carrega, felizmente, as suas vivências, os seus estilos, e são essas diferenças que fazem a beleza literária. Acaso alguém quer chegar ao Brasil e comer “Pastel de Belém”? Ou, ao invés, alguém quer chegar a Portugal e comer “acarajé”? Tudo tem a sua beleza no seu local e a diversidade é que move o mundo. As pontes são feitas por pessoas que, como eu, de forma anónima e diariamente, promovem o intercâmbio literário, de forma desinteressada, apenas pelo prazer de aproximar as duas margens do Oceano Atlântico. O resto, lamento, é fogo fátuo.

 

ME: Ferramentas de inteligência artificial e chatbots já fazem parte da escrita, da pesquisa e da circulação de textos. Na sua visão, que possibilidades essas ferramentas oferecem para escritores e pesquisadores? E que riscos elas representam para a autoria, para a memória histórica, para a verdade e para a sensibilidade humana na escrita?

Pedro Silva: Ao escrever estas palavras no ano de 2026 corro o risco de, rapidamente, os meus considerandos ficarem obsoletos. Para memória futura: sou absolutamente contra a Inteligência Artificial nas criações literárias. Quanto ao resto, creio que, enquanto Humanidade, nos iremos arrepender seriamente daquilo que alguém criou com a convicção de que jamais a Criação iria derrubar o Criador. Ledo engano. É que o ser humano não é Deus. Em termos pragmáticos, as ferramentas de inteligência artificial, e suas congéneres (chatbots, etc.), são, em termos superficiais, “facilitadoras” de tudo, incluindo pesquisa e redacção de textos. A rapidez e a amplitude de acesso são as possibilidades, ou aspectos positivos. Por outro lado, os riscos são múltiplos, destacando a propalada destruição dos direitos de propriedade intelectual (por apropriação ou “assimilação” virtual, mesclada, mastigada e vertida sob uma nova roupagem). Se muitos estão felizes com esta facilidade em ter acesso a todas as respostas sem ter de pensar? Imagino que sim. Se isso é positivo? Claro que não. A ausência de pensamento levará à anulação do ser humano, pois cogito ergo sum.

 

– FINAL DA ENTREVISTA –

 

Esperamos que esta entrevista com Pedro Silva tenha sido inspiradora para você. Conte nos comentários o que achou da conversa e qual reflexão mais chamou sua atenção. De nossa parte, saímos dela muito inspirados.

 

Mini-bio do escritor entrevistado: Natural da cidade de Tomar (Portugal), licenciado em História e Pós-Graduado em Estudos Portugueses Multidisciplinares, é patrono da Biblioteca Municipal Pedro Silva situada em São Martinho Grande (Ribeira Grande de Santiago – Cabo Verde), Cidadão Honorário da Cidade Velha (2012) pela Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago (Ribeira Grande de Santiago – Cabo Verde) e Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro (2018) outorgada por Câmara Municipal de Tomar (Tomar – Portugal). Foi, igualmente, agraciado com a Medalha de Mérito (2004) do Jornal “Audiência” (Vila Nova de Gaia – Portugal) e a Medalha de Reconhecimento Público (2014) da Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos da Escola Básica dos 2º e 3º ciclos de Gualdim Pais (Tomar – Portugal).

Para saber mais sobre Pedro Silva, use este Link.

 

Damos valor à sua privacidade

Nós e os nossos parceiros armazenamos ou acedemos a informações dos dispositivos, tais como cookies, e processamos dados pessoais, tais como identificadores exclusivos e informações padrão enviadas pelos dispositivos, para as finalidades descritas abaixo. Poderá clicar para consentir o processamento por nossa parte e pela parte dos nossos parceiros para tais finalidades. Em alternativa, poderá clicar para recusar o consentimento, ou aceder a informações mais pormenorizadas e alterar as suas preferências antes de dar consentimento. As suas preferências serão aplicadas apenas a este website.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são necessários para que o website funcione e não podem ser desligados nos nossos sistemas. Normalmente, eles só são configurados em resposta a ações levadas a cabo por si e que correspondem a uma solicitação de serviços, tais como definir as suas preferências de privacidade, iniciar sessão ou preencher formulários. Pode configurar o seu navegador para bloquear ou alertá-lo(a) sobre esses cookies, mas algumas partes do website não funcionarão. Estes cookies não armazenam qualquer informação pessoal identificável.

Cookies de desempenho

Estes cookies permitem-nos contar visitas e fontes de tráfego, para que possamos medir e melhorar o desempenho do nosso website. Eles ajudam-nos a saber quais são as páginas mais e menos populares e a ver como os visitantes se movimentam pelo website. Todas as informações recolhidas por estes cookies são agregadas e, por conseguinte, anónimas. Se não permitir estes cookies, não saberemos quando visitou o nosso site.

Cookies de funcionalidade

Estes cookies permitem que o site forneça uma funcionalidade e personalização melhoradas. Podem ser estabelecidos por nós ou por fornecedores externos cujos serviços adicionámos às nossas páginas. Se não permitir estes cookies algumas destas funcionalidades, ou mesmo todas, podem não atuar corretamente.

Cookies de publicidade

Estes cookies podem ser estabelecidos através do nosso site pelos nossos parceiros de publicidade. Podem ser usados por essas empresas para construir um perfil sobre os seus interesses e mostrar-lhe anúncios relevantes em outros websites. Eles não armazenam diretamente informações pessoais, mas são baseados na identificação exclusiva do seu navegador e dispositivo de internet. Se não permitir estes cookies, terá menos publicidade direcionada.

Visite as nossas páginas de Políticas de privacidade e Termos e condições.