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Hoje estamos abrindo uma nova série de entrevistas, os “Referenciais Luso-brasileiros da Crítica Literária”. Acreditamos que esse assunto seja do interesse de nosso público, que é formado por leitores e escritores.

Paulo Franchetti nos concedeu o privilégio de ser nosso primeiro entrevistado. Ele é professor titular aposentado da Unicamp e pesquisador do CNPq. Mestre pela Unicamp (1982) e doutor pela USP (2002), publicou, no Brasil, Nostalgia, exílio e melancolia – leituras de Camilo Pessanha (Edusp) e Estudos de literatura brasileira e portuguesa (Ateliê), bem como os livros de poemas Oeste, Memória Futura, Escarnho e Deste Lugar (todos pela Ateliê Editorial); em Portugal, publicou uma edição crítica da Clepsydra, de Camilo Pessanha (Relógio d’Água, 1995), a antologia As aves que aqui gorjeiam – a poesia do Romantismo ao Simbolismo (Cotovia, 2005) e o ensaio O essencial sobre Camilo Pessanha (IN-CM, 2008). Parte de seus trabalhos críticos está disponível em paulofranchetti.blogspot.com.br.

– INÍCIO DA ENTREVISTA –

MUNDO ESCRITO: O Brasil é um país de poucos leitores; a crítica literária, de alguma forma – ainda que indiretamente – pode contribuir para que essa situação seja revertida? Ou ela não se presta a esse serviço?

PAULO FRANCHETTI: Creio que a crítica literária não tem muito a fazer nesse sentido, de modo imediato. Isto é, se entendermos a crítica como a escrita de textos para publicação em revistas, livros ou mesmo jornais. Entretanto, creio que a crítica literária mais importante não é, ou não deveria ser essa, no que diz respeito a formar leitores, e sim a que se faz em sala de aula. Quero dizer: eu entendo a crítica literária como uma atividade especulativa em relação a um texto, como uma tentativa de situá-lo no tempo e no espaço, percebê-lo como uma resposta a uma questão. Nesse sentido, a aula de literatura – ainda que se chame aula de português ou de redação ou de história ou de filosofia – é a crítica que forma leitores. Sem uma base escolar no sentido amplo, é difícil imaginar um público amplo para a literatura. É preciso, porém, ter cuidado com a afirmação de que somos poucos ou muitos leitores. É verdade que no Brasil a educação é precária e que temos um enorme e vergonhoso contingente de analfabetos totais ou funcionais. Mas creio que sempre fomos um país de pouca instrução e de pouco investimento na educação pública abrangente e de qualidade. O que me incomoda, às vezes, é ouvir o lugar comum de que as pessoas leem cada vez menos. Eu acho que isso simplesmente não é verdade. As pessoas leem bastante. E cada vez mais, com a universalização da web e o aumento do acesso a ela. Muitas vezes, quando dizemos que o Brasil é um país de poucos leitores, queremos apenas dizer que é um país de poucos leitores de literatura. De um tipo específico de literatura, para o qual esperávamos dispor de um contingente maior. Porque há, por exemplo, um grande universo de leitores de livros espíritas, romances ou poemas. E há um público fiel do tipo de livros que chamamos de “autoajuda”. São leitores. E estão em crescimento, assim como os leitores de blogs — para não falar dos leitores de redes sociais, onde se publica de tudo, inclusive literatura. Portanto, para voltar ao começo: a atividade crítica sem dúvida contribui para a formação de leitores. Mas basicamente a atividade crítica que ocorre na situação que denominamos ensino. E todos sabemos o que tem sido o ensino público no Brasil e qual a direção que os planos governamentais têm, no que diz respeito à literatura. Basta considerar que o Enem pouca ou nenhuma importância dá à leitura literária. Então não vejo, no momento, nenhuma possibilidade de a crítica reverter a situação nacional, no que diz respeito ao pequeno contingente de leitores de literatura.

ME: Qual tipo de requisito é fundamental ao crítico literário, além do letramento literário?

PAULO FRANCHETTI: Letramento é uma palavra muito feia, do meu ponto de vista. É uma dessas modas que invadem o vocabulário. O que seria um letramento literário? Seria o mesmo que cultura literária? Então seria melhor chamar a coisa pelo nome tradicional. Porque “letramento literário” para mim parece algo sem sentido.

Mas entendo o sentido da pergunta.

Eu creio que o essencial para a atividade crítica é ter um amplo repertório de leituras. Não só de literatura. Um sujeito que leu mil e tantos romances não se qualifica, por isso, automaticamente, para a crítica literária. A formação do crítico inclui não apenas a leitura, mas a reflexão sobre ela. Basicamente, eu creio que um crítico é alguém que se faz perguntas, sempre que lê. É claro que há várias formas de leitura. É mais ou menos o que sucede quando vemos filmes: há aqueles a que a gente presta pouca atenção, dormitando ou tomando uma cerveja na sala com a tv ligada, e há aqueles que mexem profundamente conosco, que temos de ver outras vezes, que nos intrigam. Só um resenhista profissional, encarregado especificamente de indexar e avaliar para alguma revista todos os filmes da moda, se colocaria questões sobre a maior parte do que termina por assistir ao longo da vida. Um crítico, como eu entendo a atividade crítica, vai pensar e/ou escrever apenas sobre aqueles filmes (ou livros) que julgar merecer atenção. Por suas qualidades ou por seus defeitos, em função da sua repercussão. Por exemplo: há autores que gozam de prestígio, que detêm um poder simbólico no universo cultural. Quando um desses autores publica um livro, as questões já estão dadas: em que aquela obra avança, aprofunda ou repete as anteriores, qual a questão que agora aparece com maior destaque, quais os avanços ou recuos formais etc. Na outra ponta do espectro, há obras assinadas por autores dos quais nunca ouvimos falar, ou autores que não têm um lugar conquistado no universo da cultura do nosso tempo, e que nos impactam, nos fazem pensar, nos comovem. Eu acho que essas sãos as duas situações típicas que desencadeiam o exercício da crítica. Ou seja, a crítica é a apresentação de uma ou de várias perguntas e é também uma tentativa de resposta. Por isso, independe do gênero: pode aparecer numa aula, numa conferência, numa rápida resenha, num artigo especializado, numa longa monografia acadêmica. E é claro que, em qualquer desses gêneros, pode também não haver nenhuma atividade realmente crítica, mas apenas a glosa de lugares-comuns historiográficos ou teóricos. Aliás, é o que mais vemos no que usualmente denominamos “crítica literária”.

ME: Que tipos de discordâncias e de incompatibilidades existem na crítica literária?

PAULO FRANCHETTI: Todas. No sentido amplo que estou dando ao termo “crítica literária”, a regra é a incompatibilidade. Por exemplo, se eu tenho uma perspectiva sociológica, tudo que eu vá dizer sobre uma obra provavelmente será muito diferente do que alguém com uma perspectiva mais formalista diria. E há posições tão incompatíveis que frequentemente um partidário de uma posição (principalmente quando ela é a dominante no momento) simplesmente age e escreve como se a posição contrária ou divergente sequer existisse. Isso acontece o tempo todo. Basta ver o que sucede no caso da crítica sobre Machado de Assis no Brasil. Por isso, uma parte significativa do esforço crítico é aquela que consiste em criticar a crítica, desmontar um esquema narrativo, uma forma de ver um texto literário que o aprisiona e o vincula a uma interpretação. Que o limita, enfim. Porque nem sempre é possível apenas fornecer uma outra descrição e interpretação de um objeto. É preciso, antes, apontar as fissuras na interpretação corrente. A crítica literária, como qualquer atividade intelectual, é sempre uma forma de intervenção, de apropriação do passado segundo um interesse do presente, e uma tentativa de intervenção no futuro, por meio da promoção daquilo que se julga o melhor pelos olhos atuais. Por isso eu creio que a crítica mais relevante é sempre a que gera algum tipo de polêmica, que é quase sempre um indício de que há um intruso na festa, isto é, de que há algo novo no reino do costume conformista e tranquilizador.

ME: A crítica literária, em algum momento, se sustenta de pontos de vista abstratos?

PAULO FRANCHETTI: É uma questão difícil de responder porque depende de muitos pré-conceitos. O que significa nesse caso “crítica literária”? E o que quer dizer “pontos de vista abstratos”?  Se crítica literária significa aqui o que lemos em jornais e revistas e teses, e se pontos de vista abstratos significa parti-pris, posição tomada antes do contato real com os problemas do texto, armadura teórica ou histórica não disposta a ceder frente à especificidade do objeto, eu responderia que sim. Que, na verdade, é o que mais se encontra. Mas se “crítica literária” significar, em sentido mais amplo, toda atividade de indagação a um texto literário, toda atividade de busca ou atribuição de sentido, e se pontos de vista abstratos significa um conjunto de conceitos sobre a história, a própria literatura, a sociedade da nossa época e da época do texto, eu diria também que sim. Que isso é inescapável. Porque eu creio que é uma ilusão pensar na crítica como algo objetivo, despido da parcialidade da paixão. Pelo contrário, o gosto é uma componente central da crítica e estrutura o gesto crítico: seja de modo explícito, seja de modo implícito e até voluntariamente ocultado.

ME: A crítica literária dialoga com outras ciências?

PAULO FRANCHETTI: A crítica não é uma ciência, do meu ponto de vista. Nem creio que a história o seja, ou a filosofia. Mas é claro que a crítica não só dialoga, mas integra um universo de que também fazem parte a história, a filosofia, a psicologia, a linguística, a sociologia e mesmo as noções de física, química etc. — difundidas na nossa cultura, como divulgação ou mesmo embuste.

ME: A crítica literária é possível sem a influência de um viés político?

PAULO FRANCHETTI: Se viés político quiser dizer viés partidário, creio que sim. Mas não creio que haja qualquer coisa, qualquer atividade no âmbito das Humanidades (e não só) que não tenha um viés político, no sentido amplo da palavra. Porque crítica é um gesto de intervenção. E estou seguro de que qualquer gesto de intervenção é sempre um gesto político. Ou seja, o viés político, nesse sentido, é algo que não pode ser eliminado. Pelo contrário, está na origem mesma do gesto.

ME: O leitor, ao esquecer-se de si mesmo durante uma leitura, pode, por exemplo, ser fisgado por meio de uma narrativa. O crítico literário se previne contra isso ou, primeiro, degusta a obra como leitor para, aí sim, depois, fazer a crítica?

PAULO FRANCHETTI: Acredito que cada pessoa que faça crítica — em aulas ou conferências ou por escrito — tenha seu jeito de lidar com essa questão. Eu gosto de ler o que me agrada, o que me seduz ou envolve, ou irrita e me provoca alguma reação. O que não repercute em mim não me interessa muito, a não ser que seja algo que eu não possa eliminar do meu horizonte, por motivos profissionais ou “políticos”, no sentido que tentei dar à palavra na questão anterior. Por exemplo, eu não gosto de ler Proust. Li, porque é uma referência incontornável na nossa cultura. Mas não creio que escrevesse algo sobre Proust algum dia. E penso que, se por acaso algum dia eu tivesse sido forçado a incluir esse autor num curso, minhas aulas seriam medíocres. Por outro lado, há autores sobres os quais escrevi, como Eça e Machado. E eu poderia redigir um ensaio ou dar aulas interessante sobre Flaubert ou Guimarães Rosa, eu acho. Mas cada um tem uma forma diferente de se relacionar com o texto e com a atividade crítica sobre ele. Essa é a minha.

ME: Há espaços definidos entre a teoria literária e a crítica literária? Se sim, quais são? Como conceituaria as duas separadamente?

PAULO FRANCHETTI: Durante um certo tempo, havia espaços muito determinados: os departamentos universitários. Mas nem isso há mais. Tampouco me parece haver ainda lugar para o uso da expressão “teoria literária”, tal como ele se dava há 40 ou 60 anos. Por inércia, de vez em quando vejo pessoas falarem de “teoria literária” como se fosse um conjunto de doutrinas congruentes, que permitiria o melhor acesso ao texto literário. Ou quadro prévio de referências ou pressupostos. Nesse sentido, era grande o apelo de títulos que assim se nomeavam, como o de Wellek ou de Aguiar e Silva. Hoje, normalmente se fala em Teoria, sem o qualificativo “da literatura” e com uma maiúscula algo prepotente. E faz sentido, porque a maior parte da Teoria que por vezes leio é um exercício de glosa de algum pensador relevante, capaz de fornecer metáforas interpretativas. E essas metáforas não se restringem, é claro, ao campo literário. Pelo contrário, sua força provém justamente da sua aplicabilidade a vários campos da cultura e da vida social.  Portanto, já antes tinha exposto o que considero ser a crítica literária. Agora, também em linhas gerais e numa formulação que reconheço como algo brutal, o que entendo por Teoria.

ME: Pelo olhar de um crítico literário, o que uma obra contemporânea precisa ter para, no futuro, ser considerada um clássico?

PAULO FRANCHETTI: Não faço ideia, realmente. Nem mesmo se no nosso mundo futuro, a haver um, haverá lugar para clássicos – antigos ou modernos.

– FINAL DA ENTREVISTA –

Esperamos que você tenha gostado dessa primeira entrevista. Ah, e faça o favor de nos acompanhar, viu? Por quê? Porque, na próxima semana, seremos honrados pela participação de outro importante critico literário, dessa vez de Portugal! Aguarde.

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