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Como escrever um bom suspense é o assunto que trataremos neste post. Quem não gosta de um bom suspense? Esse é certamente um dos elementos mais importantes de todas as narrativas. Embora já exista como um gênero próprio, vamos descobrir por que o suspense é necessário para o bom andamento de qualquer história que se preze.

Para conseguirmos escrever um bom suspense, em primeiro lugar, devemos compreender como o suspense se apresenta nas narrativas. Disponibilizaremos 4 dicas de ouro para explorar esse recurso, usando exemplos clássicos como Chapeuzinho Vermelho e Psicose.

Como o suspense aparece nas narrativas?

Considere, por exemplo, as histórias de amor: elas só funcionam na medida em que há o suspense para saber se o casal protagonista ficará ou não junto no final. Até mesmo uma piada exige certa dose de suspense: acompanhamos a narrativa cômica em crescente expectativa, no suspense de descobrir de onde virá o desfecho inesperado que provoca o riso.

O suspense está presente até mesmo em nossa linguagem oral. Observe da próxima vez em que alguma pessoa próxima for lhe contar algum caso acontecido com ela: a maioria das pessoas simplesmente não consegue resistir a dar um toque de suspense em suas narrativas orais, adiando o final da história de forma a prolongar o tempo de atenção dos ouvintes.

Só por esses exemplos, dá para ver como o suspense é um ingrediente essencial na arte de contar histórias. Por essa razão, apresentamos a seguir quatro dicas para que você possa explorar bem esse recurso em seus textos, aprendendo também a evitar as armadilhas mais comuns.

1. Efeito Chapeuzinho Vermelho

Uma das histórias infantis mais conhecidas é a da Chapeuzinho Vermelho. Sabemos que essa história fez e faz muito sucesso entre as crianças, o que talvez não tenha sido tão óbvio até agora é o quanto do sucesso de Chapeuzinho Vermelho se deve justamente ao suspense. Veja, por exemplo, o trecho abaixo que constitui o clímax da história:

 

Ao avistar a avó enrolada sob as cobertas, Chapeuzinho Vermelho estranhou a sua aparência.

— Nossa, Vovó, que orelhas grandes você tem! — exclamou a menina.

O Lobo, disfarçando a voz, respondeu:

— É para te ouvir melhor, minha netinha!

Chapeuzinho continuou intrigada:

— Vovó, mas que olhos grandes você tem!

— São para te ver melhor, querida! – disse o Lobo.

— E que braços enormes você tem, Vovó!

— São para te abraçar melhor, Chapeuzinho!

— E essa boca enorme, Vovó?

— É para te devorar melhor!

Se alguma vez você já leu “Chapeuzinho Vermelho” para uma criança, sabe que, em nove de cada dez casos, ela pedirá que a história seja lida novamente assim que chega ao fim. Parte desse incrível fascínio exercido sobre as mentes infantis se deve, justamente, ao suspense contido na narrativa.

Aqui temos o suspense em seu formato clássico: o leitor ou espectador possui informações privilegiadas, que o protagonista não possui. Nós sabemos que é o Lobo disfarçado de Vovozinha que aguarda enrolado nas cobertas. Quem não sabe de nada é a Chapeuzinho Vermelho, avançando inocentemente em direção ao perigo. A tensão emocional provocada pela antecipação do momento da revelação é o fator de suspense que nos mantém grudados na história, mesmo sabendo o que acontecerá em seguida.

Qual é a diferença entre o suspense e o mistério?

Essa, aliás, é a diferença principal entre o suspense e seu gênero irmão, o mistério. Na história de mistério o leitor/espectador tenta solucionar o enigma antes do protagonista (que geralmente é um detetive), num jogo em que as pistas para a solução vão sendo apresentadas no decorrer da história. Já na história de suspense, o leitor/espectador sabe de antemão o que cabe ao protagonista descobrir. Se você gosta do tema, pode ler mais sobre mistério clicando aqui.

Analisar algumas histórias desse gênero pode ser um bom exercício para observar como o “Efeito Chapeuzinho Vermelho” é utilizado. Isso certamente ajudará você a empregar bem esse recurso em suas próprias histórias.

2. A Técnica do Coitus Interruptus

Outra forma bastante comum de suspense consiste em prolongar a tensão dramática através do adiamento da cena da resolução. Nas narrativas orais, como no exemplo da pessoa que conta um episódio acontecido com ela, geralmente esse adiamento da resolução é conseguido pelo acréscimo de detalhes secundários, cujo único propósito é retardar o final da história. É assim que muitas pessoas acabam errando a mão ao contar um acontecimento emocionante, prolongando demais e tornando a narrativa enfadonha.

Já no caso das narrativas textuais e audiovisuais existe um recurso que não é tão facilmente utilizável nas narrativas orais. Chamaremos esse recurso de “técnica do coito interrompido” (coitus interruptus, em latim). É uma técnica bem simples, mas muito eficaz: consiste em interromper uma cena no auge da tensão, pulando para alguma outra cena que aconteça paralelamente ou mesmo passando para um próximo capítulo ou episódio.

Essa técnica é bastante comum na literatura, no cinema e na tevê, constituindo uma das principais características do folhetim, estilo narrativo geralmente seguido em seriados e telenovelas. Observe como, via de regra, as narrativas em série costumam usar e abusar desse recurso, interrompendo a história sempre no momento de maior tensão possível, de forma a manter a atenção e o interesse.

3. Suspense versus Ameaça

Falaremos agora de uma das principais armadilhas que você deve aprender a evitar para utilizar bem o suspense em suas histórias. Da mesma forma como muitas pessoas caem na tentação de prolongar demais sua narrativa oral ao contar um “causo” qualquer, os escritores também são passíveis de cometer um erro semelhante, ao confundir suspense com ameaça.

Chamamos de “ameaça” uma tentativa artificial de criar suspense, pela enumeração de perigos imaginários. Considere a seguinte cena:

 

Um homem está sozinho em casa, à noite, quando alguém bate à porta. Ele fica imediatamente alarmado, pois uma série de misteriosos desaparecimentos têm ocorrido na vizinhança. Quem estará batendo à porta, a essa hora? Será um assassino? Ou algum outro perigo desconhecido? Será melhor pegar uma arma antes de abrir a porta? Ou fingir que não tem ninguém em casa? Depois de muitas hesitações, o homem afinal decide abrir a porta. E descobre então que sua namorada resolveu fazer uma visita surpresa.

 

O trecho acima é o resumo de uma cena que ocupa nada menos que dez páginas de um romance norte-americano, cujo autor muito apropriadamente se intitula “o mestre da ameaça”. Convenhamos que é muito desperdício de tempo do leitor levar dez páginas para fazer o personagem abrir uma porta. Nessa passagem, houve uma tentativa explícita de forjar o suspense por meios artificiais. E o efeito acaba sendo o contrário do desejado: ao invés de ficar tenso e grudado na leitura, o leitor fica irritado, com vontade de pular páginas.

Suspense ou ameaça? Descubra com este teste!

Por falar nisso, há um teste muito simples para averiguar se determinado trecho de uma história apresenta suspense real ou se não passa de ameaça: dá para pular essa parte sem prejuízo na compreensão da trama? Se for possível suprimir a cena sem que ela faça falta, isso é um sinal seguro de que esse trecho está sobrando e deve ser mesmo cortado, sem dó nem piedade.

4. Apresentando MacGuffin

O cineasta Alfred Hitchcock, cujo nome está indissoluvelmente ligado ao MacGuffin, costumava contar a seguinte história para explicar essa técnica tão singular:

Dois homens viajam em um trem, quando um deles nota uma caixa de aparência estranha no bagageiro. Ele pergunta:

— O que há nessa caixa?

— Um MacGuffin — responde o outro.

— E o que é um MacGuffin?

— É um aparelho para capturar leões nas terras altas da Escócia.

— Mas não existem leões na Escócia!

— Bem, então isto não é um MacGuffin!

Essa curiosa anedota nos ajuda a fixar a ideia central do MacGuffin: trata-se de um recurso narrativo (pessoa, objeto ou lugar) que tem o papel de motivar a ação na trama, mas que no fundo não tem tanta importância assim para o desenvolvimento da história. Vamos ilustrar o que é um MacGuffin com o exemplo retirado de um dos melhores filmes de Hitchcock: Psicose.

Esse filme, cuja famosa cena do chuveiro entrou para a iconografia da cultura popular, é hoje imediatamente associado ao personagem Norman Bates e, por extensão, à figura igualmente icônica do serial killer. Contudo, tente se colocar no lugar das pessoas que primeiro assistiram ao filme, em 1960. Durante os primeiros 40 minutos da película, a trama gira em torno da jovem Marion Crane, que dá um desfalque de 40 mil dólares na firma onde trabalha para ajudar o namorado em apuros.

Esses dólares roubados são, justamente, o MacGuffin de Psicose, pois é o roubo desse dinheiro que vai conduzindo a pobre Marion para o fatídico encontro com seu assassino, no banheiro do Motel Bates. No entanto, após assistir ao filme, percebemos que esses dólares roubados, na verdade, não tinham a menor importância para a história. Eram apenas um pretexto para que a ação acontecesse.

E aqui podemos perceber uma das grandes vantagens do uso do MacGuffin, que é tomar o leitor ou espectador totalmente de surpresa. Hitchcock levava isso tão a sério que, antes da estreia de Psicose nos Estados Unidos, ele mandou comprar todos os exemplares do livro no qual o longa metragem foi inspirado, para que ninguém pudesse saber de antemão qual era a verdadeira história do filme. O grande Hitch queria que todos pensassem que a sua história era sobre o roubo dos 40 mil dólares, para que a cena do chuveiro pudesse realmente surpreender sua plateia e, de quebra, proporcionar alguns pesadelos inesquecíveis!

Agora é a sua vez!

Assim, neste post, dentro do que nos foi possível, compartilhamos o que consideramos necessário para a escrita de um bom suspense. Esperamos que esse conteúdo tenha sido útil e torcemos para que seus textos tenham sempre a dose de suspense na medida exata, capturando os corações e as mentes de seus leitores.

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