Publicamos ontem a entrevista que fizemos com o João Gabriel Paulsen, vencedor da categoria “Contos” do Prêmio SESC de Literatura 2019. Agora, com muito orgulho e alegria, compartilhamos nossa entrevista com o vencedor da categoria “Romance” do mesmo prêmio. Estamos falando de Felipe Holloway (foto acima, por Thiago Sinohara).

Felipe Holloway, 30 anos de idade, nasceu em Canindé, no Ceará, e mora desde criança em Cuiabá (MT). É professor de Língua Portuguesa da rede estadual, formado em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e mestrando em Estudos Literários pela mesma instituição. Começou a escrever aos 17 anos, quando se dedicava mais aos contos e, tempos depois, passou a escrever narrativas mais longas.

A entrevista de Felipe Holloway é para ser lida muitas vezes. Ele conseguiu provocar profundas reflexões em cada uma de suas respostas às nossas perguntas. Aproveita!

 

– Início da Entrevista –

 

MUNDO ESCRITO – O que é escrever bem para você?

FELIPE HOLLOWAY – Em termos literários, escrever bem significa, em certo sentido, saber jogar de acordo com as regras que a língua impõe, mas tem a ver, sobretudo, com transgredi-las, subjugá-las ao seu bel-prazer, ou de acordo com as demandas da obra. Roland Barthes afirma em “Aula”, um de seus textos mais famosos, que existe na língua um fascismo que se opera não porque ela nos impeça de dizer algo, mas por obrigar-nos a dizê-lo, por ser aparentemente impossível escapar a seus mecanismos internos. Para lograr esse fascismo da língua, para trapacear nos interstícios do sistema quase intransponível que ela cria é que se faz importante o objeto literário.

ME – Como você reconhece um bom romance?

FELIPE HOLLOWAY – É difícil definir o que faz um bom romance. Sei que o tema, para mim, importa muito menos do que a execução. Aliás, gosto de textos que transformam um fio narrativo mínimo em objeto de reflexões que se espraiam por centenas de páginas. Não sou muito afeito a descrições físicas, por outro lado. Também não julgo um romance com base no nível de correspondência que possa haver entre a trama e a realidade, no quão “verossímil” ou “atual” é seu enredo. Já tive uma fase em que esse aspecto mimético das obras era o que me atraía, mas ela definitivamente terminou.

ME – Na sua avaliação, como está a produção literária no Brasil hoje?

FELIPE HOLLOWAY – Acho que vivemos um momento de grande efervescência na literatura nacional, com autores como Ana Paula Maia, Michel Laub, Sérgio Rodrigues, Simone Campos, Daniel Galera e tantos outros produzindo de modo consistente, sem mencionar a quantidade de escritores incríveis que o próprio Prêmio Sesc revelou. Também acho fantástico que hoje haja mais espaço para que autores oriundos de realidades sociais historicamente sub-representadas possam produzir e publicar sua arte, seja esta de que cunho for. No mundo fora das grandes editoras, é ainda mais incrível o modo como a boa literatura viceja à revelia dos holofotes. Conheço vários autores independentes cujo talento para a escrita ombreia sem favor algum com o de escritores chancelados pela crítica mais canônica.

ME – O Brasil é um país que dá condições para que os escritores possam viver do seu ofício?

FELIPE HOLLOWAY – Infelizmente, não. A proficuidade e a pluralidade mais acentuada a que me referi na resposta à pergunta anterior ainda contrastam com a existência de um público leitor relativamente reduzido. Acho que temos um déficit enorme no que diz respeito à formação de leitores — um déficit cuja origem envolve complexidades rastreáveis à educação pública, ao fomento que se dá às artes no país etc. Numa nação em que as demandas por subsistência ainda são prioridade para uma imensa parcela da população, e onde existe uma institucionalização progressiva da desvalorização dos bens culturais, não dá para simplesmente acusar o povo pela falta de interesse em adquirir tais bens, em prestigiar seus artistas.

ME – Quais são seus escritores de referência?

FELIPE HOLLOWAY – Dentre os brasileiros, posso citar Machado, naturalmente, Luis Fernando Verissimo, Luiz Vilela, Daniel Galera, Lygia Fagundes Telles… Dentre os estrangeiros, há o Borges, o Roberto Bolaño, o Javier Marías, o Coetzee, o David Foster Wallace, o Ian McEwan, o W. G. Sebald…  

ME – Com as novas mídias e novos hábitos de leitura, como os escritores estão se reinventando?

FELIPE HOLLOWAY – Nunca gostei de colocar a literatura num patamar de “competição” com outras formas de entretenimento. Há um livro do Nicholas Carr chamado “The shallows” em que ele trata do conceito de neuroplasticidade, uma característica do cérebro que impele a uma reprogramação em sentido bioquímico, fazendo com que, por exemplo, os hábitos de leitura suscitados pelas novas mídias — e que primam pela velocidade, pela falta de unidade temática, privilegiando a concisão extrema e muitas vezes sendo refratários a um período de “digestão” do que se leu — afetem a forma como lidamos inclusive com a leitura literária. Eu mesmo, num mundo pós-Twitter, e no qual o superlativo “textão” tem caráter pejorativo, perdi parte significativa de minha capacidade de concentração por um longo período de tempo na leitura de um romance mais denso. Honestamente, ainda não sei como os escritores estão lidando com isso, sobretudo os que já estavam na ativa na era pré-internet. Gostaria muito de ver um estudo que colocasse as coisas em termos de correlação possível, saber se hoje há, por exemplo, uma predominância de verbos de ação, de frases curtas, da voz ativa em obras literárias, devido a esse contexto de culto à dinamicidade.

ME – O que representa para você receber o prêmio SESC de Literatura?

FELIPE HOLLOWAY – A maior das viradas na minha vida profissional, até aqui. Isso porque, embora depois tenha se convertido numa paixão, minha formação como professor de Português só se iniciou porque o desejo de ser escritor precisou ser colocado em pausa, dadas as dificuldades iniciais (relativas à realidade do mercado editorial brasileiro e ao meu próprio domínio técnico ainda precário da escrita). A docência foi, assim, uma forma de me manter relativamente próximo de meu desejo mais antigo, bem como de ter uma fonte de renda que me permitisse seguir criando paralelamente. A partir dessa conquista, a possibilidade de transformar o que antes se qualificava como “hobby” em profissão começa a parecer menos inverossímil, para mim.

ME – Como surgiu o enredo de “O legado de nossa miséria”?

FELIPE HOLLOWAY – A ideia que deu origem ao romance surgiu de um conto que escrevi em 2013 para participar de um concurso literário do site “Entrecontos”, que promove mensalmente desafios temáticos online. Agradou-me a noção da história que se desenvolve a partir de um diálogo aparentemente casual, lançando tentáculos em direção ao passado das pessoas que desse diálogo tomam parte, mas também ao futuro delas. Devo muito da forma final que o livro assumiu ao feedback dos colegas que também participaram do desafio em questão, bem como à leitura-beta de amigos escritores que, como eu, produziam assiduamente para esses concursos. De lá para cá, muita coisa foi alterada, e o próprio tema dentro do qual o conto foi originalmente inscrito (“viagem no tempo”) já não possui uma presença marcante no romance que dele resultou.

ME – Para você qual é o legado da nossa miséria?

FELIPE HOLLOWAY – Atualmente, se chegássemos a um contexto hipotético de extermínio global (um equivalente ainda mais dramático do pai que pergunta à prole: “se eu morresse hoje, o que seria de vocês?”), acho que o legado mais importante seria o da arte como resistência. À finitude, à opressão, à falta de sentido das coisas, à morte.

ME – Em seu romance, os dois personagens principais trabalham com literatura. Um é crítico e professor; o outro, escritor. Alguns deles ou ambos são uma espécie de alter ego? De que forma sua concepção pessoal sobre a literatura está espelhada na maneira como eles mesmos trabalham e vivem a arte?

FELIPE HOLLOWAY – Acredito que eu tenha mais em comum com o personagem do escritor. Com o crítico, só compartilho a imersão no meio acadêmico e a afeição pela literatura. Já com o escritor, o denominador comum está na dúvida constante quanto à legitimidade do que produzo, na sensação ocasional de ser uma farsa, uma colcha de retalhos emuladora de escritores e livros preferidos. Mas já li biografias suficientes para saber que não estou sozinho na manifestação desses sentimentos, o que é ótimo. Além disso, também me debato, como o personagem, com a forma como a literatura pode ser, a um só tempo, autônoma e ter um papel importante na superação das mazelas sociais do contexto em que sua produção se insere.

Quanto à concepção do objeto artístico, me afasto mais ainda do crítico, que pende para uma visão mimética e, por vezes, utilitarista da obra de arte. Um ponto em que me aproximo de ambos, nesta seara, é o da crença em que a arte pode alterar completamente o curso das vidas, para o bem e para o mal.

ME – No livro, uma das interpretações possíveis é a visão da obra de arte como uma redenção para o vazio existencial. Você compartilha dessa visão?

FELIPE HOLLOWAY – Como forma de preenchimento de parte desse vazio, sim. Acredito que exista na beleza estética certo fim em si mesma. Gosto da coisa sublime que certos contos e romances, que certas passagens e certas reflexões me fizeram sentir, quando de sua leitura, e sou impelido a escrever pela possibilidade, ainda que remota, de provocar o mesmo em outras pessoas. Mas há um contraponto, também. Foi o Faulkner que disse que a literatura se assemelha a um fósforo aceso no meio de um campo vasto, pois sua chama não ilumina um espaço significativo do entorno, mas dá uma dimensão da escuridão circundante. Acho que tornar-se amante da arte é uma espécie de pacto mefistofélico em que, por amor à beleza, pela possibilidade de contemplá-la, consentimos em perder para sempre uma visão mais feliz, embora por vezes mais ingênua, do mundo.  

ME – Como o atual contexto político e social brasileiro está presente em sua obra?

FELIPE HOLLOWAY – Acho que o contexto social de certa elite intelectual brasileira tem presença significativa no romance. Mas, exceto por um ou outro monólogo, as reflexões tendem a um caráter mais metafísico. De que modo a literatura pode ajudar a emendar o mundo? Essa função cabe mesmo a ela? De que modo a hipocrisia de certa intelligentsia, que não vê problemas em fazer coexistir um discurso público humanitário e a perversidade de certas práticas privadas, pode impactar as vidas daqueles que com ela se relacionam? A obra não traz respostas definitivas para nenhuma dessas perguntas, mas gosto de pensar que a incitação à reflexão está presente.

ME – E como a atual produção literária está sendo influenciada, de modo geral, pela polarização política do Brasil?

FELIPE HOLLOWAY – Não me sinto muito habilitado a responder essa questão pelo fato de estar desatualizado em minhas leituras literárias referentes ao período em que essa polarização se fez sentir com mais intensidade, ou que tomaram a polarização em si por norte temático. Nessa seara, e dentro das minhas leituras mais recentes, creio que apenas “Meia-noite e vinte”, do Daniel Galera, tenha tocado de algum modo na questão; é possível ver ali, por exemplo, as manifestações de 2013 (e tudo o que a elas se seguiu, em nosso cenário político) como elemento simbólico para tratar da inquietação geracional de seus personagens, que aos poucos vão degenerando para o conformismo nos níveis político e artístico. Mas é uma história que se repete: a arte, como mecanismo natural de insurreição ao establishment, vai cumprir seu papel com força redobrada, se esse establishment flerta com a tentativa de silenciá-la, de usurpar seu valor. E é ótimo que seja assim.

ME – A história de “O legado de nossa miséria” se passa no interior de Minas Gerais; você é cearense e mora no Mato Grosso. Como estão a produção e a divulgação literárias no interior do Brasil? Ainda permanecem muito restritas ao eixo Rio-São Paulo?

FELIPE HOLLOWAY – No mundo dos autores independentes de que provenho, há um movimento de dispersão geográfica que é suprido pela existência das redes sociais. Assim, em locais nos quais o cenário literário “físico” encontra poucos meios para vicejar (muitas vezes pela falta de iniciativas públicas que concentrem esses autores ou que os ajudem a difundir sua arte regionalmente), a saída tem sido os projetos de difusão online. O “Entrecontos”, que já mencionei, por exemplo, conta com autores de quase todos os estados do país. Regionalmente, também há o site “Ruído Manifesto”, com o qual já contribuí. Não há como competir com as facilidades que um contexto de efervescência cultural como o do eixo Rio-São Paulo possui, mas a internet tem se mostrado uma excelente ferramenta de convergência e divulgação literárias.

ME – Como é sua rotina, sua disciplina de trabalho como escritor?

FELIPE HOLLOWAY – Como a escrita, até aqui, precisou coexistir com demandas menos literárias, relacionadas ao meu trabalho como professor e à minha rotina como estudante de mestrado, não possuo um roteiro para a produção das obras. Os concursos literários e desafios temáticos do “Entrecontos” representavam impulsos iniciais para textos que, no entanto, às vezes demoravam meses, até anos, para se completarem. Creio que isso mudará um pouco, a partir daqui.

ME – No seu ofício de escritor, você tem algumas manias, segredos, técnicas que possa compartilhar?

FELIPE HOLLOWAY – Há alguns tiques, sim, mas creio que se relacionem mais à minha experiência de leitor, tendo se transferido, mais tarde, para minha escrita. Não sou afeito a descrições físicas, como já mencionei. Também não gosto muito de nomear meus personagens — o desafio de ter de me referir a eles de outras formas me parece atraente. Gosto de frases longas, que se estendam por várias páginas e que sejam pródigas em apostos. Detesto “muletas” narrativas em diálogos (“disse fulano”, “redarguiu sicrano” etc.), a menos quando recorrer a elas é inescapável. Sou um grande fã de finais abertos.

Felipe Holloway

Foto: por Thiago Sinohara

ME – Como é o processo de revisão de seus textos?

FELIPE HOLLOWAY – Exaustivo. Trabalho paralelamente como revisor de textos acadêmicos (e, eventualmente, literários), tendo sido, inclusive, estagiário do setor de revisão da editora da Universidade Federal de Mato Grosso, a EdUFMT, de modo que a revisão, para mim, é uma compulsão profissional muito antes de ser um capricho estético. Falo não só de questões relacionadas à gramática: sou capaz de interromper a produção de um conto por meses apenas por não encontrar a palavra adequada para certo contexto, e do tipo que prefere morrer a encontrar um cacófato em uma obra já publicada. Mas estou tratando disso com minha terapeuta. 

 

– Fim da Entrevista –

 

Como dissemos logo no início, se você quer se enveredar na carreira literária, leia essa entrevista outras vezes, em outros momentos, pois Felipe Holloway foi generoso ao compartilhar conosco a sua experiência. Esperamos que você também tenha apreciado.

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