Hoje voltamos com a segunda entrevista da série “Dicas de escritores famosos para quem quer ser escritor“. Quem nos deu a honra da entrevista foi Luisa Geisler!

Escritora Luisa GeislerLuisa Geisler ganhou o Prêmio SESC de Literatura de 2010 quando tinha apenas 19 anos na categoria “conto” com o seu livro de estreia “Contos de Mentira”, que também foi finalista do Prêmio Jabuti. No ano seguinte, ganhou de novo, agora na categoria “romance” com seu livro “Quiçá”. “Quiçá” também foi finalista do Jabuti e traduzido e publicado na Espanha. Em 2012, foi incluída na antologia “Os melhores jovens escritores brasileiros”, organizada pela revista Granta, sendo a mais jovem autora selecionada para a coleção. Desde então, publicou “Luzes de emergência se acenderão automaticamente”, semifinalista do Prêmio Oceanos e traduzido e publicado na Argentina. Seu último lançamento é “De Espaços Abandonados”. Seu trabalho foi traduzido e publicado internacionalmente, em países como Alemanha, França, Estados Unidos, Reino Unido e Japão. É mestre em Processo Criativo pela National University of Ireland.

Dá para ver que, com tal bagagem, essa entrevista promete. Vamos a ela?

– INÍCIO DA ENTREVISTA –

Mundo Escrito (ME): Sabendo que você é poliglota, gostaríamos de saber se este fator lhe ajuda objetivamente como escritora.

Luisa Geisler: Objetivamente? Não. Gosto de conhecer idiomas mais para ter maior fruição das palavras, tanto em português quanto em outros. Idiomas diversos me ajudam a pensar o português diferente.

ME: Deve-se escrever logo que surge uma ideia ou é melhor primeiro esquematizá-la (escaleta)?

Luisa Geisler: Eu prefiro fazer um esquema. Gosto de saber aonde as coisas vão. Mas acho que se a ideia está pronta na cabeça, ninguém é obrigado a anotar tudo. Até porque às vezes sigo o instinto e faço alterações no meio da obra, durante a escrita. Personagens que deveriam aparecer uma vez só e se tornam recorrentes. O processo criativo sempre é muito pessoal.

ME: Que recursos você usa quando surgem ideias de madrugada ou em lugares afastados da escrivaninha?

Luisa Geisler: Tenho um chat comigo mesma no WhatsApp. Hoje em dia todo mundo está com o celular na mão, não é? Eu sou igual. Mando pra mim mesma a ideia ou até mesmo fotos, situações que vou saber destrinchar depois.

ME: Como se distanciar do personagem e ter controle das suas ações? Há alguma técnica ou truque que você usa e gostaria de compartilhar? Como criar empatia com o leitor através do personagem?

Luisa Geisler: Mas o escritor precisa se distanciar do personagem? Pra mim, o ideal é entrar no jeito daquele personagem pensar, o jeito de ver o mundo. Você precisa usar os olhos do personagem. Eu sou escritora, então sempre reparo nos livros das estantes das pessoas, penso muito na escolha de palavras. Mas e se meu personagem é arquiteto? O que ele repara primeiro? Que histórico ele tem que o vai fazer pensar dessa maneira?

Sobre controlar as ações do personagem, você precisa conhecer o próprio personagem muito bem. Sabe como você consegue prever direitinho como um amigo vai agir em determinada situação? Quando você conhece o personagem, você o domina a ponto de não ser tão surpreendido. É claro que sempre surgem ideias novas, mas o ideal é ter um pouco de controle.

ME: Quais características (psicológicas e físicas) são imprescindíveis na atribuição a um personagem, para que ele seja notado?

Luisa Geisler: Desde que seja verossímil, pode tudo. Todas as características precisam andar juntas para enviar uma mensagem coerente a respeito daquela pessoa. O leitor precisa entender a lógica de ser do personagem. Todas as suas escolhas devem parecer a única saída possível.

ME: Os personagens são (ou têm), de alguma forma, traços autobiográficos do escritor?

Luisa Geisler: Acho impossível não ter. Mesmo que eu tenha feito o personagem mais diferente de mim, ele está balizado em mim, não está? Eu sou o ponto de comparação. Sempre escorre algo do real.

ME: O que te move para a escrita?

Luisa Geisler: O prazo, na maior parte do tempo.

ME: Você adota uma disciplina com rotina de escrita diária ou encaixa a escrita em seu dia a dia?

Luisa Geisler: Adoto uma disciplina de rotina de escrita diária. Tenho que ter, é quase como um músculo. E é justamente por isso que tenho um planejamento da história: para não precisar ter ideias novas na maior parte do tempo. Eu sei aonde tenho que ir em determinados pontos. Isso também ajuda a não sobrecarregar a mente. Prefiro escrever uma página por dia por sete dias do que escrever sete páginas em um dia só. Afeta o resultado final.

ME: Qual tipo de leitura você pode recomendar (e por que) para quem quer dar os primeiros passos como escritor ainda sem escolhas de gênero?

Luisa Geisler: Tem alguns livros bons, como o “Como Funciona a Ficção”, do James Wood, ou o “Para Ler Como Um Escritor”, da Francine Prose, ou o “Aulas de Literatura” do Cortázar. O próprio “Como Escrever e Ler uma Sentença”, do Stanley Fish. Eles ajudam a pensar o texto como algo que pode ser lapidado. É importante ver o texto além de algo mágico que surge do além. Cada frase, cada escolha de verbo, cada palavra, cada coisinha poderia ser outra coisinha. Então o que justifica a escolha? Independente do gênero, o escritor tem que saber defender seu texto. Tem que saber dizer por que um adjetivo está ali e não aqui. Isso é importante. Porque mesmo que o leitor apenas vá “sentir” se o texto funciona ou não, o racionalizar ajuda muito. Escrever é muito longe de um processo mágico.

ME: Com as tecnologias de hoje, disponíveis na internet, poderia citar algumas ferramentas úteis para quem escreve com regularidade?

Luisa Geisler: Eu uso o Word no começo e o Scrivener mais ao final. O Scrivener é bom para editar grandes blocos de texto, capítulos e coisas assim. Fora isso, claro, uso dicionários online e tudo o mais. Por outro lado, ainda tenho um Thesaurus (dicionário de ideias afins) junto de mim o tempo todo.

ME: O escritor tem dois momentos importantes: 1) a criação do livro e 2) a publicação. O que você poderia nos dizer sobre isso?

Luisa Geisler: A criação do livro e a publicação do livro são processos dolorosamente diferentes. Envolvem até mesmo habilidades diferentes. Por outro lado, ambos têm em si a necessidade da persistência. E todo artista nada mais é que um persistente de tudo.

– FIM DA ENTREVISTA –

Gostou da entrevista? Nós gostamos muito. E estamos cada vez mais empolgados com esses autores. Aguarde a próxima entrevista e não se esqueça de ir anotando as dicas!

Já leu a entrevista que fizemos com o Fabio Shiva? Vale a pena aproveitar a inspiração e conferir as dicas desse outro grande escritor!

 

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