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Com muita alegria, retornamos hoje com as Perguntas e respostas avançadas sobre Escrita Criativa – Episódio 7. Quem nos deu a honra da pergunta de hoje foi Luisa Geisler!

Se você ainda não viu os outros episódios, não sabe o que pode ter perdido. Por isso, recomendamos fortemente que os assista logo que tiver mais um tempinho, certo? São eles: Episódio 1 (Fábio Shiva), Episódio 2 (Wlange Keindé), Episódio 3 (João Gabriel Paulsen) e Episódio 4 (Felipe Holloway), Episódio 5 (Ricardo Labuto Gondim) e Episódio 6 (Paula Giannini).

Se já viu os episódios anteriores já sabe que o título “Perguntas e respostas avançadas sobre Escrita Criativa” se deve ao fato de que todas as perguntas foram feitas por escritores(as) profissionais, assim como todas as respostas foram dadas por Rubens Marchioni, escritor expert no assunto Escrita Criativa e autor do livro Escrita Criativa – da ideia ao texto, publicado pela Editora Contexto.

Vamos ao vídeo? Ah, como temos feito, logo após o vídeo disponibilizamos também a transcrição realizada e editada por nossa equipe de Transcritores.

 

Agora, segue a transcrição realizada e editada por nossa equipe de Transcritores.

 

Pergunta de Luisa Geisler

Luisa Geisler

A minha pergunta para o professor Rubens é se existe algum conselho literário que a gente possa generalizar; se tem alguma coisa que a gente possa dizer que se aplica a todo tipo de escrita; se tem algum conselho que é válido, independente do autor que o ouve.

E a minha segunda pergunta para o Rubens é a seguinte: tem como se tornar escritor sem ser um grande leitor? E eu não digo se tornar o melhor escritor da face da terra, eu digo: tem como uma pessoa ser escritora sem ser uma grande leitora? De ficção especificamente, mas pode estender a pergunta para onde quiser.

 

Resposta de Rubens Marchioni

Rubens Marchioni

Oi, Luísa Geisler. Você me faz duas perguntas. A primeira, se é possível se tornar escritor sem antes ser um leitor. E a segunda é o que seria mais ou menos um roteiro para quem pretende escrever. Eu vou concentrar as duas perguntas na mesma resposta, porque elas se conversam. E eu trouxe um material que acho que ajuda bastante a gente a entender aquilo que você está querendo. Falando desse material, mostrando um pouco esses conteúdos, consigo atender à sua demanda a respeito dessas duas questões que você levanta aqui.

O material é uma crônica escrita pelo Otto Lara Resende no dia 1 de maio de 1991, quando ele assumiu o lugar na Folha de São Paulo, página 2, que até então era de um outro escritor, o Fernando Sabino. E ele escreve sobre o dia 1 de maio porque é no dia 1 de maio que ele está começando a trabalhar na Folha. Ele escreve sobre o dia do trabalho.

Você deve se lembrar, e todo mundo se lembra, do número de trabalhos de redações que a gente fez na escola sobre o dia do trabalho, e como saíam esses textos. Aí você pega o Otto Lara Resende, que é uma pessoa que tem uma longa experiência na área de buscar conhecimentos, transformar esse conhecimento em texto, e você dá uma olhada no que ele faz. Depois você pode entrar no Google e pesquisar, mas eu vou só fazer um apanhado dos elementos que ele reúne para construir essa crônica.

Então, por exemplo, ele fala do centenário da Independência, da Semana de Arte Moderna, do Tenentismo, da Fundação do Partido Comunista, da inauguração do rádio, da origem do próprio Dia do Trabalho, o ano em que isso começou, uma greve que aconteceu em Chicago, o resultado do comparecimento da polícia, que foram 11 mortos, sendo 4 operários e 7 policiais, e que, depois, lembrando Chicago, os socialistas em Paris inventaram o Dia do Trabalho.

Ele mostra a data chegando ao Brasil, em 1893. Mostra o surgimento desse dia no Brasil oficialmente, como lei e feriado. Aí ele sai desse campo e vai para um outro, que ele mostra o mês de maio como mês de Maria, mês das noivas, mês da flor de maio, “só para o meu amor é sempre maio”, cantou o primeiro poeta, Camões; um dos últimos, Drummond, escreveu uma carta aos nascidos em maio, porque ele viu neles uma predestinação lírica que chamou “o princípio de maio”. O autor, então, menciona José de Alencar, Afonso Arinos, e a data de nascimento dos dois, que eram dois verdes, indianistas e sertanistas. A data de certidão de nascimento do Brasil, a carta de Pero Vaz de Caminha, que é de primeiro de maio de 1500. Caminha, como o primeiro ufanista. Depois, a chegada da inflação, da corrupção e da dívida externa ao Brasil. A explosão do Rio Centro, e por fim uma farsa do inquérito militar.

Tudo isso ele usa como recurso, como matéria-prima, para montar esse prato que o pessoal da gastronomia recomenda, que quanto mais colorido estiver o prato, mais saudável ele é. Ele junta tudo isso para criar uma crônica sobre um assunto banal, corriqueiro, como o primeiro de maio, que nós escrevemos tantas vezes. Ele junta tudo isso para criar um texto que fica fantástico, que fica original, que fica muito bonito.

Agora, você consegue imaginar esse escritor construindo essa crônica, Bom Dia Para Nascer, sem ler muito? Sem essa reunião de material? Sem essa riqueza de conteúdo que ele coloca nessa crônica? Isso é impossível. Portanto, a sua pergunta, se é possível se tornar escritor sem ler muito já dá para perceber pelo texto do Otto Lara Resende que não, não é possível.

Agora, saindo da literatura, porque eu quero pegar um outro argumento, eu vou para a propaganda, com um anúncio veiculado na Inglaterra. E, só para quem não sabe, a Inglaterra, pelo menos nos anos 1980, era o país onde se produzia a melhor propaganda do mundo. A segunda era feita no Brasil. Então, quando você pega um anúncio feito na Inglaterra, ele serve como autoridade. E aí você vê que o redator está falando também de um assunto banal. Ele está falando de uma mosca. Exatamente, de uma mosca, nada do outro mundo. Só que ele tem um volume, um conjunto de informações que lhe permite criar um drama, uma tragédia na cabeça do leitor.

Ele não se limita a dizer: “olha, gente, a mosca é um inseto muito chato, muito feio. E aí não deixa a mosca ficar na sua casa, porque não faz bem”. Não, isso não resolveria. Não causaria impacto. Para causar impacto, ele precisa de informações, para saber usá-las do jeito certo, na hora certa.

Então, olha o que ele escreve. É para a gente aprender. O anúncio tem só a foto de um prato de comida e o texto diz o seguinte:

Isso é o que acontece quando moscas pousam em sua comida.

“Moscas não podem comer alimentos sólidos. Assim, para amolecê-lo, elas vomitam sobre ele. Depois, sapateiam sobre o próprio vômito, até que haja uma massa bem líquida, acrescentando também com as patas, como de hábito, uma boa dose de germes. Em seguida, quando a coisa está realmente fluida e escorregadia, elas sugam de volta tudo de novo, provavelmente enquanto soltam excrementos à sua volta. Então, quando elas acabaram de comer, chegou a sua vez.

“Cubra a comida, cubra utensílios, alimentos e bebidas; cubra artigos de dispensa”. (Conselho Britânico de Educação e Saúde).

O anúncio, que tem essa qualidade, e que é aprovado por nada menos que o Conselho Britânico de Educação e Saúde, portanto um pessoal muito sério, muito rigoroso, é para você ver que sem conteúdo não se escreve alguma coisa com qualidade. Não tem jeito. Com conteúdo, você pega uma mosca e transforma numa peça de arte. Sem conteúdo, sem leitura, não dá para fazer nada parecido.

Agora, alguns caminhos para a criação literária. Primeiro, saber que existem obras literárias, que existem autores que fazem muito bem. Ninguém ama aquilo que não conhece. Você precisa conhecer. E de novo cai na questão de ler muito. Segundo, você precisa sentir indignação. Querer saber como esse escritor consegue obter aquele resultado. Ficar indignado porque você ainda não consegue. Por que ele consegue e eu não? O que ele faz e eu não faço? Onde está a diferença? E ir atrás.

Você precisa de um ótimo repertório de estilos, maneiras diferentes de falar, e de palavras para você poder jogar com esse repertório todo e atingir a pessoa, o seu leitor. Você precisa pesquisar para descobrir como é que os grandes escritores produzem os seus textos.

Eu já fiz pesquisa analisando anúncios publicitários, no meu tempo de faculdade, para descobrir como doze textos que eu peguei como amostras eram construídos. Desmontei os doze textos e cheguei a uma conclusão. Descobri qual é a base, qual é o padrão escondido por trás e que ninguém revela. Só muito tempo depois, lendo um livro sobre propaganda publicado pela marca Ericsson, eles falavam o que eu havia descoberto analisando esses anúncios.

Outro autor que eu admiro muito, que é o Lucas Mendes, âncora de um programa que eu não perco de jeito nenhum na GloboNews, no domingo à noite, o Manhattan Connection, bom, eu desmontei acho que dezenove textos dele, artigos, porque eu queria saber como é que ele constrói aqueles textos que eu acho muito bem feitos. Eu procurei perceber a estrutura que está por trás. Você precisa ser competente para escrever bem. Lembre-se de uma coisa, escrever é falar no papel. Fale como você conversa normalmente, de gente para gente. Se você fizer isso, você atinge gente, atinge pessoas. Escreva primeiro a primeira versão do seu texto sem interromper o fluxo do pensamento. Para conseguir isso, aqui vai o segredo. Enquanto você está escrevendo, digitando uma palavra, pense nas duas ou três próximas que você vai usar. Assim, você não interrompe o fluxo, não quebra a corrente e não perde a ideia que você está colocando no papel ou na tela do computador. É assim que fazem os repórteres da televisão. Eles falam de improviso, eles usam essa técnica. E seja muito exigente na hora de editar. Você não é escritora. Você é reescritora.

Espero que isso tenha atendido à sua demanda.

Não perca, na próxima semana, a próxima pergunta sobre Escrita Criativa!

Fabio Shiva

 

Uma sensação que é muito recorrente em meu processo criativo, principalmente quando se trata de uma obra com extensão maior, como romance, é que, primeiro, surge uma ideia inicial, e depois eu vou tendo outras ideias complementares, e a sensação é de um encaixe, de um fechamento de uma Gestalt, como se eu estivesse me aproximando de uma ideia, de um conceito anterior, como se fosse algo que eu não tivesse criado. E isso me faz lembrar muito uma frase do Ezra Pound, que “o artista é a antena da raça”. Então, diante dessas considerações, até que ponto nós criamos algo? Será que nós não apenas captamos? Qual é a sua opinião, Rubens? (Fabio Shiva)

Por ora, o Perguntas e respostas avançadas sobre Escrita Criativa – Episódio 7 fica por aqui. Na próxima semana estaremos de volta com o próximo episódio.

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