A pauta Ideologia versus Literatura parece ter tudo para gerar uma conversa efervescente. Entrevistamos 11 escritores de várias regiões do Brasil. A cada um perguntamos “Ideologia versus Literatura: como conviver com isso?”.

Ah, se você ainda não viu o primeiro post dessa série, por favor, aproveite para apreciar os mesmos escritores respondendo à primeira pergunta “O que é escrever bem para você?”.

Mas, se você já viu o primeiro post da série, assista agora ao vídeo abaixo, com as respostas à segunda pergunta “Ideologia versus Literatura: como conviver com isso?”

Segue abaixo a transcrição das falas dos 11 escritores. Vale anotar!

CÉSAR COSTA

Cesar Costa

Quanto a questão da ideologia, eu tenho uma opinião bem simples: eu acho que nós não devemos querer impor regras ou limites para quem está produzindo o seu trabalho literário ou cultural. Se o autor julgar que deve colocar suas ideologias nas histórias, quem vai julgar é o público. Eu acredito que o escritor é senhor máximo da sua história e compete a ele decidir o que vai escrever ou não.

 

LUIS DILL

Luis Dill

Olha, eu tenho pavor de literatura panfletar; e ideologia cada um tem a sua, não há problema nenhum. Em relação especificamente à literatura, eu acho que ela precisa ter qualidade.

 

LU EVANS

Lu Evans

Ideologia é um aspecto muito forte para a nossa característica como ser humano e para a nossa personalidade. É muito difícil um autor ir de encontro à sua ideologia, quando está escrevendo. Se você é contra o aborto, muito dificilmente vai escrever algo que seja favorável ao aborto; se você é anti-gay, muito dificilmente vai conseguir escrever uma boa peça de literatura tendo, como personagem principal, um gay defendendo uma política de igualdade para todos. É claro que a gente tem que contar com o fator “dinheiro e poder” – tudo pode ser corrompido, na verdade até mesmo a nossa ideologia.

 

LUISA GEISLER

Luisa Geisler

Para mim é um pouco difícil pensar em Literatura x Ideologia, porque não existe literatura sem ideologia. O ato de escrever é um ato político; o ato de eu ser uma mulher branca escrevendo é um ato político para o bem ou para o mal. Então, pessoalmente não gosto de literatura panfletária. Não gosto de literatura que seja condescendente e tente me ensinar algo de maneira explícita, eu gosto de eu mesma saber as coisas. Mas a literatura sempre vai ser ideológica, de um jeito ou de outro.

 

RICARDO LABUTO GONDIN

Ricardo Labuto Gondim

A literatura se defende da ideologia na medida em que o autor se vigia e assegura a sua independência, a sua liberdade de pensamento e, também, de expressão. Agora, a questão é que a gente fala muito em ideologia hoje porque existe uma ideologia de direita, uma ideologia capitalista muito vulgar na superfície das coisas. Mas isso é enganoso. O que está em curso é um projeto de extermínio dos pobres, porque eles “não são mais necessários” – a indústria não precisa de milhares de pessoas, hoje. Ela tem robôs; a inteligência artificial dispensa um contingente enorme que antes trabalhava no setor de serviços. Então, ao mesmo tempo em que a literatura não precisa se defender da ideologia, ela precisa enxergar a ideologia.

MAUREM KAYNA

Maurem Kayna

Todo texto e toda ação tem um ideal por trás. Mesmo que o autor desse texto ou dessa ação não esteja assim tão consciente. Eu não acredito em neutralidade em nenhuma hipótese. Todo aquele que comunica, que condensa uma ideia – uma ficção ou uma reflexão em um texto – está colocando ali as suas convicções e a sua visão de mundo, ainda que o coloque como forma de crítica, como forma de provocar incômodo e desacomodação. Não existe texto neutro. Agora, incomoda-me um texto quando essa ideologia fica “panfletária”, óbvio demais, subestima quem está lendo, pobre. Ai não funciona.

 

WLANGE KEINDÉ

Wlange Keindé

Eu acho que a ideologia sempre vai estar na literatura que a gente cria. Isso é até uma coisa que o Antonio Cândido (crítico literário e sociólogo 1918-2017) fala, que a ideologia de valores – tanto os valores correntes da sociedade quanto os valores da ideologia do próprio autor são uma das principais características que influenciam na obra. Então, não tem por que você tentar ser neutro, até porque não existe neutralidade. Eu acho que se você acredita em alguma coisa você tem que colocar aquilo na sua obra porque, afinal, a obra é sua e nada mais justo do que você colocar a sua ideologia e seus valores ali.

 

PEDROOM LANNE

Pedroom Lanne

A Literatura tem um papel importantíssimo, tanto para disseminar qualquer ideologia como para revelar o que está “por trás”. A ideologia, às vezes, esconde interesses que não batem com as ideias que ela veicula. E uma maneira de lidar com isso é estudando; ler ficção e não-ficção é fundamental para você poder aprender a separar o “joio do trigo”. É difícil lidar com isso. Mas, lendo e estudando a gente consegue.

 

BIA MACHADO

Bia Machado

Quanto a ideologia, eu penso que a gente não tem como separar muito ou, pelo menos, não deve escrever pensando nisso. Se eu tenho um texto para escrever, eu não vou ficar me preocupando se eu vou colocar a minha ideologia ou não. Mas eu não posso negar ou fingir uma coisa que eu não sou. Se eu tenho certa ideologia, tenho que seguir essa ideologia. Claro, não tenho que ser panfletária, mas, quem gostar do que eu escrevo vai aceitar isso de alguma forma.

 

MOGG MESTER

Mogg Mester

O autor, para mim, é como um pintor ou como um escultor. Ele não tem a obrigação de gerar um juízo de valor sobre um determinado assunto ou defender determinado argumento. Ele pode sentir a necessidade de fazer aquilo, se ele achar que aquilo, de fato, sai e é verdadeiro para ele. E, antes de tudo, ele vai estar sendo honesto com o leitor. Então, o pintor não se sente obrigado a fazer uma coisa, ele faz por necessidade.

 

FABIO SHIVA

Fabio Shiva

Essa questão da ideologia é realmente polêmica, principalmente hoje, quando tem pessoas propondo uma escola sem ideologia. Na verdade, quando você está dizendo que alguma coisa deve estar sem ideologia, você está querendo impor a sua ideologia e tirar a ideologia contrária ao que você acredita. Por sincronicidade, neste livro [Quem Tem Medo da Ciência? Ciências e Poderes] Isabelle Stengers fala que é impossível uma Física, uma ciência sem ideologia. Que dirá a Literatura?! Um final feliz é uma ideologia. Vamos tomar consciência das nossas ideologias que estão inconscientes, porque, ideologia, todos nós temos.

BIOGRAFIA DOS ESCRITORES: As biografias de todos os escritores que participaram desse post estão relacionadas na descrição do vídeo em nosso canal do Youtube.

E você, o que achou dessas respostas dos escritores? Deixe a sua opinião aí nos comentários. Ideologia versus Literatura: como conviver com isso? Deseja receber notificação dos próximos posts? Então cadastra o seu email aí abaixo.

 

Receber atualizações do nosso Blog?

Deixe seu e-mail abaixo:

 

 

Torne isto mais acessível.