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Dando continuidade à série com os erros mais frequentes que aparecem durante a revisão de textos em língua portuguesa, falaremos hoje sobre regência verbal. No episódio anterior, tratamos do primeiro entre os erros mais frequentes: a colocação pronominal.

 

Por que dominar o assunto?

 

Ter domínio sobre as regências dos verbos, além de possibilitar uma adequação de textos de sua autoria às normas prescritivas da língua portuguesa do Brasil, é também uma ferramenta essencial para que você potencialize a sua compreensão quanto aos diversos textos clássicos e canônicos de nossa literatura.

Esse domínio também abre portas para que você, enquanto indivíduo social, aumente consideravelmente a sua capacidade de se expressar nos mais variados espaços sociais — inclusive naqueles mais conservadores, como, por exemplo, o meio acadêmico, onde a norma-padrão é priorizada e propagada.

 

O que é, de fato, a regência verbal?

 

Em uma oração, os verbos podem ser considerados termos regentes, ao passo que seus complementos são os termos regidos. Assim, em qualquer oração, ocorre uma relação de subordinação clara entre o termo regido e o termo regente. 

Isso quer dizer que, frequentemente, os verbos necessitam de complementos. Exemplificando: os verbos transitivos diretos necessitam de um objeto direto; os transitivos indiretos, um objeto indireto; bitransitivos, um objeto direto e um objeto indireto; e, finalmente, no caso dos verbos intransitivos, embora não seja uma necessidade, é bastante comum a presença de um ou mais adjuntos adverbiais.

 

Por que os desvios acontecem?

 

Por ser um tópico que demanda um pouco mais de conhecimento sobre a função sintática dos termos de uma oração, é comum que desvios de regência verbal ocorram na linguagem oral, ou seja, falada, do cotidiano.

Todavia, em se tratando de textos em língua portuguesa — com exceção de usos propositais da linguagem popular em obras de ficção ou em ações de marketing, devemos considerar o que a norma-padrão reconhece como a utilização prescritiva dos verbos e de seus respectivos complementos verbais.

É fundamental, também, que saibamos que um mesmo verbo, dependendo de seu sentido dentro da oração, pode exigir complementos verbais diferentes (como pedir ou não uma preposição para imediatamente o acompanhar).

 

Como fazer a regência verbal corretamente?

 

Abaixo, listaremos, em ordem alfabética, as regências verbais corretas que mais vezes aparecem escritas de modo incorreto nos textos corrigidos pela equipe de revisão da Mundo Escrito. Não apontaremos todos os casos possíveis de regências verbais, pois, se assim o fizéssemos, estaríamos nos incumbindo de um trabalho hercúleo que decerto tomaria anos a fio e que nos obrigaria a criar um dicionário específico — e extenso — sobre o tema.

 

Verbo agradar:

 

a) No sentido de acariciar, de mimar, de afagar, exige objeto direto:

Exemplo: A mãe agradou o bebê de colo.

 

b) No sentido de contentar, de satisfazer, exige objeto indireto:

Exemplo: O fiel agradou a Deus.

 

Verbo agradecer:

 

No sentido de demonstrar gratidão, admite estruturações diferentes.

 

a) Quando se é grato a alguém: exige objeto indireto (preposição a).

Exemplo: Os pacientes agradeceram aos profissionais da saúde durante a pandemia.

 

b) Quando se é grato por algo: exige objeto direto.

Exemplo: Agradeço o convite que me fizeste.

 

c) Quando se é grato a alguém por algo: exige objeto indireto e objeto direto.

Exemplo: O filho agradeceu ao pai o presente recebido.

 

d) Mais recentemente, também é permitido que o objeto indireto (iniciado pela preposição a) seja seguido por uma nova construção, sendo esta iniciada igualmente por outra preposição — pela preposição por.

Exemplo: A avó agradeceu aos netinhos pelos abraços carinhosos.

 

Verbo aspirar:

 

a) No sentido de sorver, de inspirar, exige objeto direto.

Exemplo: O viajante aspirou o ar puro do campo.

 

b) No sentido de almejar, de pretender, de desejar, exige objeto indireto (preposição a).

Exemplo: Nós aspiramos ao princípio do bem comum.

 

Verbo assistir:

 

a) No sentido de socorrer, de ajudar, de prestar assistência, exige objeto direto.

Exemplo: Os socorristas assistiram o homem ferido na rodovia.

 

b) No sentido de presenciar, exige objeto indireto (preposição a).

Exemplo: Assistimos à série nova da Netflix.

 

c) No sentido de pertencer, de caber, exige objeto indireto (preposição a).

Exemplo: Assiste a todos o direito de defesa.

 

Verbo chegar:

 

a) É um verbo intransitivo. No sentido de alcançar ou de ter atingido um determinado destino, deve ser seguido da preposição a, que dará início ao adjunto adverbial, e não da preposição em, como costumeiramente ocorre.

Exemplo: Cheguei ao hospital às 11h. (Em vez de “cheguei no hospital às 11h”).

 

b) Somente quando houver designação de tempo se usará a preposição em para iniciar o adjunto adverbial.

Exemplo: Ele chegará em quinze minutos.

 

c) A preposição de será utilizada quando o sentido for voltar de, vir de.

Exemplo: Nós chegamos de viagem ontem.

 

Verbo esquecer:

 

Nos sentidos de não pensar em; de deixar escapar da memória; de não se lembrar; admite três possíveis estruturações.

 

a) Objeto direto, quando não é pronominal.

Exemplo: Esqueci a roupa no varal.

 

b) Objeto indireto, quando é pronominal.

Exemplo: Eles se esqueceram da roupa no varal.

 

c) Sem qualquer complemento verbal.

Exemplo: Naquela noite, depois de chorar, ela foi dormir para esquecer.

 

Verbo informar:

 

No sentido de instruir, de dar uma notícia, admite três possíveis estruturações.

 

a) Apenas com objeto direto.

Exemplo: O jornal informou a notícia.

 

b) Com objeto direto (alguém) e com objeto indireto (algo, precedido ou pela preposição de ou pela preposição sobre).

Exemplo: Informai-vos sobre o que diz a Constituição.

 

c) Com objeto direto (algo) e com objeto indireto (alguém, precedido da preposição a).

Exemplo: Nós informamos o crime aos policiais.

 

Verbo ir:

 

No sentido de dirigir-se (a um lugar), de comparecer, de deslocar-se, admite duas possíveis estruturações.

 

a) É um verbo intransitivo. Deve ser seguido pela preposição a ou pela preposição para, que darão início ao adjunto adverbial — nunca pela preposição em.

Exemplo: Fui ao Centro da Cidade. (Em vez de “Fui no Centro da Cidade”).

 

b) Deve ser seguido pela preposição a ou pela preposição de quando indicar meio de transporte.

Exemplo: Vou de táxi.

 

Verbo namorar:

 

É um verbo transitivo direto e, portanto, exige apenas objeto direto como complemento verbal — não pede a preposição com.  

Exemplo: Júlia namorou Miguel na adolescência.

 

Verbo obedecer:

 

No sentido de submeter-se à vontade de outrem, admite dois diferentes tipos de estruturações.

 

a) Sem qualquer complemento verbal.

Exemplo: Ai de você se não obedecer!

 

b) Com objeto indireto, exigindo a preposição

Exemplo: As crianças devem sempre obedecer aos pais.

 

c) Apesar de ser um verbo transitivo indireto, é um dos poucos verbos que admite uma construção na voz passiva.

Exemplo: A sanção econômica foi obedecida.

 

Verbo preferir:

 

No sentido de preferência a; de gostar mais de; admite dois tipos diferentes de estruturações.

 

a) Com objeto direto.

Exemplo: Tu preferes comer agora?

 

b) Com objeto direto e com objeto indireto, este último exigindo a preposição a — e jamais a locução do que.

Exemplo: Joana prefere dormir a se exercitar.

 

Verbo visar:

 

a) No sentido de mirar, ou também no de dar visto, é verbo transitivo direto e exige objeto direto.

 

Exemplos:

O arqueiro visou o alvo.

Meus tios conseguiram que visassem os seus passaportes.

 

b) No sentido de ter em vista, de pretender, é verbo transitivo indireto e exige objeto indireto, que será iniciado pela preposição

Exemplo: A jovem visava ao mais alto cargo da empresa.

 

c) Quando o verbo visar, no sentido de pretender, de ter em vista, for seguido de um verbo no infinitivo, preza-se pelo não uso da preposição a entre ambos os verbos.

Exemplo: Visei viajar para concluir meus estudos.

 

Concluímos, enfim, que, embora pareça simples à primeira vista, regência verbal é um assunto praticamente inesgotável — afinal, todos os verbos em língua portuguesa possuem suas regências próprias (e, como vimos, às vezes possuem múltiplas regências, dependendo dos seus muitos significados).

Esperamos, nesse segundo episódio da série “Os erros mais frequentes na revisão de textos”, ter contribuído para a sua compreensão a respeito da regência verbal. Mas, se ainda ficou com alguma dúvida, não perca tempo. Pergunte aí, nos comentários. Teremos prazer em ajudá-lo respondendo à sua dúvida!