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Hoje o Perguntas e respostas avançadas sobre Escrita Criativa – Episódio 8 traz mais uma pergunta de Fabio Shiva para que, outra vez, o Rubens Marchioni traga-nos a sua resposta.

Este já é o penúltimo episódio. Se perdeu algum dos episódios anteriores, basta visitar os respectivos links abaixo:

Episódio 1 (Fábio Shiva)

Episódio 2 (Wlange Keindé)

Episódio 3 (João Gabriel Paulsen)

Episódio 4 (Felipe Holloway)

Episódio 5 (Ricardo Labuto Gondim)

Episódio 6 (Paula Giannini)

Episódio 7 (Luisa Geisler)

Como já dissemos em todos os episódios anteriores, o título “Perguntas e respostas avançadas sobre Escrita Criativa” se deve ao fato de que as perguntas são sempre feitas por escritores(as) profissionais e todas as respostas são dadas por Rubens Marchioni, escritor expert no assunto Escrita Criativa e autor do livro Escrita Criativa – da ideia ao texto, publicado pela Editora Contexto.

Agora vamos ao vídeo! Como é de praxe, a transcrição realizada e editada por nossa equipe de Transcritores segue logo depois do vídeo.

 

Pergunta de Fabio Shiva

 

Fabio Shiva

Uma sensação que é muito recorrente em meu processo criativo, principalmente quando se trata de uma obra com extensão maior, como romance, é que, primeiro, surge uma ideia inicial, e, depois, eu vou tendo outras ideias complementares, e a sensação é de um encaixe, de um fechamento de uma Gestalt, como se eu estivesse me aproximando de uma ideia, de um conceito anterior, como se fosse algo que eu não tivesse criado. E isso me faz lembrar muito uma frase do Ezra Pound, que “o artista é a antena da raça”. Então, diante dessas considerações, até que ponto nós criamos algo? Será que nós não apenas captamos? Qual é a sua opinião, Rubens?

 

 

Resposta de Rubens Marchioni

 

Rubens MarchioniOi, Fabio. Você me pergunta se eu acredito que o escritor é uma espécie de “antena do universo”, como já teria sido dito por alguns escritores. Eu acredito que sim. Eu não tenho muita dúvida a respeito disso. Agora, tem uma questão muito séria nesse negócio. Se ele se joga, e eu vou falar melhor sobre isso mais para frente, mas, continuando, se ele se joga no processo de criação, de tirar conteúdo do nada, aí ele se torna, sim, um canal aberto para o universo — para que universo se manifeste a partir do trabalho de criação que ele faz. Mas isso ocorre somente no caso de ele se abrir para o universo. Vamos fazer essa figura para facilitar o entendimento: o universo manda a mensagem dele, o cérebro aberto capta essa mensagem, transforma em texto e, então, entrega para o leitor. Aí, sim, ele faz um trabalho de radar do universo.

Agora, se ele controlar muito o processo, se ele tentar ficar muito senhor do processo, se ele segurar a torneira, se ele decidir que as coisas vão ter o jeito dele, daquela pessoa exclusivamente, e não do universo, porque ele não quer ficar a serviço do universo, ele, então, se considera a parte mais importante. O mais provável é que nós vamos ter um trabalho literário pobre, porque não vai ser o trabalho do universo. Vai ser um trabalho de uma pessoa dentro de todo o universo.

Se ele fizer essa parte, que não é fácil, ele consegue; ele vai ser, sim, esse canal entre o universo e o ser humano. Mas só se ele se abrir. Senão, não. O José Ortega y Gasset, um filósofo espanhol, em um livro que eu li recentemente, faz uma pergunta intrigante, e ele se pergunta onde é que está o conhecimento. “Será que eu estou, por exemplo, sentado aqui? Ou estou passando por um lugar, e esse conhecimento está no universo?” Lembra que eu falei agora de o escritor ser um canal do universo e de esse conhecimento estar no universo e ele entrar na minha cabeça? É uma coisa que lembra o pensamento de Platão, quando Platão diz que, quando eu vejo um cavalo aqui na Terra, eu estou vendo um cavalo, não estou vendo o cavalo, que, na verdade, está no mundo das ideias, no mundo ideal.

O conhecimento chegaria à nossa mente meio dessa maneira? Existe o cavalo e a gente capta aqui o que é um cavalo? Eu capto aqui uma centelha, uma fagulha do que é o conhecimento, e ele vai para o meu cérebro? E aí, então, isso se transforma em literatura, que é distribuída pelo mundo, e o mundo se torna mais rico porque eu aceitei me colocar a serviço dele, pegando alguma coisa que nem todos conseguem pegar e entregando para ele? Eu estou a serviço, portanto, da humanidade?

Desse modo, acontece uma coisa interessante: o fato de que, quando as pessoas leem o texto escrito nessa perspectiva, elas não só se identificam, mas elas se sentem encantadas, porque existe algo de mais profundo do que aquele mundinho de todo dia, de pagar conta, de trabalhar, de encarar o trânsito, de tudo isso que a gente faz no dia a dia e que fica muito pobrezinho.

Falando de antena: quando o engenheiro vai construir uma ponte, eu quero, eu espero que ele, por favor, considere algumas coisas. 2 mais 2 dá 4. A metade de 8 é 4. Engenheiro, por favor, não brinca com esse negócio, você vai matar muita gente. É um engenheiro.

Agora, quando você fala em trabalhar com literatura, você está falando de arte. O artista é aquela pessoa que capta o universo e traz para você. Ele é a “antena do universo”. Ele vai buscar o que o universo tem para você.

O pensamento do engenheiro é: qual é (no singular) a metade de 8? E a metade de 8 sempre vai ser 4. O artista, a pessoa que escreve, trabalha com as palavras, faz mosaico com as palavras, muda a pergunta. Ela pergunta quais são as metades de 8. Porque ele, o artista, não quer a resposta convencional. Ele quer saber quais são as possibilidades que ele tem para uma mesma pergunta para oferecer para as pessoas aquilo que de repente todo mundo viu, mas ninguém enxergou. Como já falei aqui, em uma outra situação, uma das metades de oito é “oi”. Outra possibilidade é “m”, “w” é “to”. Isso tudo é metade de oito. Você vai descobrindo. É zero.

O artista quer descobrir as metades, as possibilidades, porque é por aí que ele vai se transformar nessa “antena”; que vai levar uma emoção, um conhecimento ao público.

Eu sempre falo, ao dar aula de escrita criativa, que não existe contrato; mas, se existisse um contrato, ele teria uma cláusula que diria mais ou menos o seguinte: se o treinando não aceitar entrar no jogo de experimentar, eu automaticamente me sinto desobrigado de prosseguir o trabalho e de esperar qualquer resultado, porque isso é absolutamente fundamental. Se você tem alguém que quer aprender a escrever, mas se tranca, dizendo que a metade de oito só pode ser quatro, essa pessoa não vai escrever.

Do engenheiro, não; mas, do artista, eu quero a porralouquice; eu quero a viagem na maionese, eu quero aquilo que ninguém disse, aquilo que vem de um jeito diferente, porque isso é fazer literatura. Depois, quando ele tiver a primeira versão pronta, ele volta, relê. Se ele sentir que carregou um pouco mais aqui, um pouco mais ali, que não é bem desse jeito, ele tem a possibilidade de arrumar.

Um critério para se olhar a criatividade é que ela sempre deve estar em cima da adequação. Eu pular do décimo andar do prédio onde eu moro é algo diferente, mas não é algo adequado. Eu não devo pular. Tem que ser algo adequado.

Agora, depois da primeira versão do trabalho feita, se ele achar que exagerou um pouco, que para aquele público não está bom, que não deve ser dessa maneira, ele retira os excessos. Mas ele não vai tirar o excesso daquilo que ele ainda não tem. Ele precisa, primeiro, começar a fazer esse trabalho.

Um outro motivo por que eu acredito que o escritor é uma espécie de antena: eu vejo no meu trabalho. Tenho uma coluna semanal e escrevo no blog da editora. Chega uma hora que você não sabe muito bem o que vai escrever, porque não é sempre que você tem uma ideia pronta. E aí eu faço uma coisa que me faz pensar nisso, de o universo estar trabalhando em parceria comigo. Eu pego um papel e escrevo uma palavra. Rubens, qual palavra? Qualquer palavra da língua portuguesa. Primeiro, olha que maravilha! Qual é a outra atividade disponível em que você tem um número tão grande de matéria-prima à sua disposição para trabalhar? Nenhuma.

Escrevo qualquer palavra. Ponto. E eu fico olhando para ela. Ela automaticamente responde, e isso me parece meio mágico, parece meio o universo me dizendo: “é por aí que a gente vai, então?”. E eu dizendo para ele: “sim, universo, é por essa palavra que a gente vai”; ele fala: “então, vamos”. É meio que como se fosse o Waze dizendo, “Então vamos começar a viagem.”

E aí a minha cabeça, que então está ligada ao universo, puxa uma segunda palavra, ou puxa uma frase, e essa frase puxa uma terceira, e essa terceira puxa uma outra, e eu não interrompo o processo. Eu não interrompo, para não interromper o fluxo das ideias e não perder, não deixar o barro endurecer no meio do caminho e depois eu ter que jogar meu trabalho fora e começar do zero. Eu deixo para que a coisa vá até o final. Depois, se eu não gostar de nada, eu jogo fora e começo de novo, mas geralmente eu gosto, porque eu tenho alguma coisa que está inteira, e eu estou feliz porque consegui fazer uma primeira versão do meu trabalho, do artigo que eu preciso escrever.

Eu acho que isso tem algo dessa antena pela qual a gente funciona. Escrever a primeira palavra e deixar um pouco o universo ir conduzindo o processo. Não dizer que quem conduz sou eu. Não. Eu faço também uma parte, mas deixo o universo conduzir isso. É como se eu dissesse para mim mesmo: “Vamos ver o que vai acontecer”, e, sempre, em resposta, acontece uma coisa muito boa.

Há também uma outra experiência e, sempre que eu dou aula de escrita criativa, eu insisto nisso. Eu falo para os treinandos o seguinte — e esse é um desafio, porque eu chamo de rito de passagem para virar escritor; ou seja, se conseguir fazer isso, esse é um sinal de que está virando escritor —: “tudo bem, você escreveu lá a primeira palavra, a primeira frase. Escreva muito rapidamente, sem interromper, em hipótese nenhuma”. “Ah, mas, Rubens, se uma abelha sentar na minha mão e picar?”, inclua a abelha no seu texto, mas não pare. Você precisa dar a impressão de que foi tomado por um espírito, você não tem mais controle sobre você. Você foi tomado pelo universo e ele utilizou a sua mão para fazer um trabalho. E você emprestou a sua mão para ele.

No final das contas, como você não quebrou o fluxo, como você não impediu o ato sexual de chegar até o final — afinal, escrever é fazer sexo com as palavras —, você vai ter um texto. Daí para a frente a coisa fica simples. Na hora de escrever, você escreveu como artista. Aceitou o papel de artista. Agora, você vai ler o seu texto como juiz, para ver se ele está adequado à finalidade a que ele se propõe. Só que aí você tem um texto ditado pelo universo, que você aceitou receber e que aceitou fazer o papel de intermediário.

E, por fim, isso você não sabe o efeito que faz: leia o seu texto como um maestro, como um cara que tem os ouvidos muito afinados. Preste atenção na sonoridade da palavra. Tem palavra que tem uma sonoridade ruim, que não está legal onde ela está encaixada. Tem frase muito longa. Geralmente, você pode pegar uma vírgula, transformar em ponto final e começar uma outra frase. Tem várias coisas que você vai percebendo no texto por meio da leitura em voz alta: você consegue perceber coisas que você não perceberia numa leitura silenciosa.

Então, acho que escrever é uma coisa muito simples. Eu quis dar esses dois exemplos, o de escrever a primeira palavra e o de escrever como quem foi possuído por um espírito, porque essas coisas são decisivas; e, as outras, elas têm a ver com os papéis: o artista — aquele responsável pela porralouquice; o juiz — aquele responsável pela adequação; e o maestro — aquele responsável pela sonoridade. Tudo isso, junto, faz do escritor um ótimo canal. É isso.

Não perca, na próxima semana

 

Paula Giannini - Escritora

 

Falando um pouco do nosso momento, a pergunta que fica nessa ocasião de pandemia, de coronavírus, de quarentena, em um mundo onde a gente está vivendo tantas tristezas, com tantas mortes: o que você acha que vai acontecer com a literatura nesse momento de quarentena? Você acha que vão sair bons textos a partir daí? Ou a literatura não vai conseguir se igualar à tamanha dor, à tamanha distopia? O que você acha? (Paula Giannini)

 

 

 

Finalizamos, por ora, o Perguntas e respostas avançadas sobre Escrita Criativa – Episódio 8. Na próxima semana voltaremos com o último episódio. Deixe-nos saber se você está gostando da série. Ela foi feita pensando em você, que se interessa em escrever de maneira cada vez mais profissional. Seus comentários são muito importantes!