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Este artigo abre a série “Perguntas e respostas avançadas sobre a Escrita Criativa”. E qual a razão do termo “perguntas e respostas avançadas”? Dois motivos:

1) Porque todas as perguntas foram formuladas por escritores profissionais, que já têm livros publicados e/ou são vencedores de importantes concursos nacionais de Literatura.

2) Porque todas as respostas foram dadas por Rubens Marchioni, expert no assunto e autor do livro “Escrita Criativa – da ideia ao texto, pela Editora Contexto.

A primeira pergunta foi de Fabio Shiva. Músico, escritor e produtor cultural. É autor dos livros “Favela Gótica”, “Diário de um Imago” e “O Sincronicídio”. Fabio Shiva é também coautor e roteirista de “ANUNNAKI – Mensageiros do Vento”.

A seguir, o vídeo da pergunta de Fabio Shiva com a resposta de Rubens Marchioni. Se desejar, leia a transcrição que segue logo abaixo do vídeo.

 

Pergunta de Fabio Shiva

 

Fabio Shiva

 

 

Olá, Rubens! Considerando o conselho de Flaubert, “conserva teu priapismo”, conselho esse que foi seguido por figuras tão eminentes, como Freud, que em determinado momento combinou com sua esposa que eles não iriam mais fazer sexo para que ele pudesse canalizar sua libido unicamente para seus escritos, minha pergunta é: qual a relação entre criatividade e sexualidade?

 

 

Resposta de Rubens Marchioni

 

Rubens MarchioniA gente pode ver isso em duas chaves, de duas maneiras. Na primeira, se você pensar em termos de canalizar informações. Ainda que possamos questionar, porque isso foi uma sugestão de Jesus, que depois a igreja se apropriou e transformou numa ordem, o celibato na igreja trabalha em cima dessa ideia.

A ideia de que se você quer se dedicar a um projeto, você deve estar inteiramente livre, inteiramente disponível, com suas melhores energias, com tudo que você pode ter de atenção, de tempo, porque todo grande projeto demanda um tempo, todo grande projeto demanda trabalho, demanda um esforço, demanda uma capacidade de organização. Então, se você quer se dedicar a fazer isso bem feito, sempre ajuda se as suas energias, se o seu tempo, se a sua atenção não estiverem divididos.

Nesse sentido, se você está sozinho, as coisas tendem a dar um resultado melhor. Se você não tem essa divisão, se você não tem uma outra pessoa com quem você precisa dividir suas energias, a chance de ter um resultado melhor aumenta.

Vou dar um exemplo: você precisa se ausentar da sua cidade, do seu país, em função desse trabalho. Você vai e não tem problema nenhum. Mas por que se ausentar? Porque você precisa desse momento para estar com você mesmo, para conhecer outra realidade, para conhecer outras pessoas, para olhar para a realidade de uma maneira que já foi olhada, inclusive por você mesmo, mas que você não havia, ainda, se dado conta daquela realidade, daquela maneira que você está vendo agora.

Vou dar um exemplo bem pequenininho, e você pode ampliar isso, se quiser. A dupla de criação da agência de propaganda que tinha a conta da Coca-Cola nos Estados Unidos passou uma manhã inteira trabalhando para encontrar um novo slogan para a Coca-Cola. E não encontravam, travou. Aí, eles se permitiram sair, se permitiram abandonar o lugar de trabalho, mudar de realidade. Eles foram almoçar, e, passando pelo jardim da agência, lá estava o jardineiro trabalhando. E o jardineiro não sabia de nada, não sabia que eles estavam tentando encontrar o slogan para a Coca-Cola, não tinha nenhuma informação do tipo, mas eles eram pessoas criativas. Aí perguntaram ao jardineiro: “E para você? O que é Coca-Cola?”. E o jardineiro respondeu: “Coca-Cola é isso aí”.

“Ótimo, temos o slogan tão procurado para o produto por uma manhã inteira, por duas pessoas”. E esse slogan permaneceu durante muitos anos. “Coca-Cola, é isso aí”.

Às vezes você precisa sair de dentro das quatro paredes. Você precisa ir para o jardim. Você precisa encontrar o jardineiro, a pessoa da faxina, e às vezes essa pessoa não está na cidade onde você vive. Ela está em outro lugar. Ela está no trem que você vai tomar, no avião que você vai tomar, para encontrar uma grande ideia. Isso significa ter disponibilidade.

Essa é uma visão um pouco mais técnica. Agora, vamos olhar essa pergunta de outro ponto de vista. Sexualidade e criatividade. Eu li uma vez que “escrever é fazer sexo com as palavras”. Um escritor, não lembro o nome, premiado; mas ele disse isso. E é exatamente isso. Sexualidade é você usar a sua sexualidade, é usar a sua potência criativa na hora de produzir um texto. Isso é escrever. Por isso você precisa ter intimidade com as palavras.

A palavra intimidade remete automaticamente à ideia de sexualidade. Com quem você tem intimidade? Com uma pessoa muito próxima. Com quem você tem uma intimidade extrema? Com o seu marido, com a sua mulher. Isso é uma questão de sexualidade. Para que aquele bebê lindo que você quer, que é o texto, nasça, você precisa ter relação com as palavras. Você precisa fazer sexo com as palavras. Então, as coisas estão perfeitamente, intimamente ligadas. Elas se complementam.

O que é o processo criativo? Vamos dar uma olhadinha um pouco para isso. É você juntar uma coisa que foi pensada, que existe, sem este objetivo, com uma outra coisa pensada, também sem este objetivo, que vou falar em seguida; juntar as duas coisas, e aí você tem uma terceira informação, que é a grande ideia.

Um exemplo disso: um dia, um cara criativo, habituado a fazer sempre a pergunta “e se? Por que não?”, ele tinha um motor. Quem pensou em fazer esse motor não o idealizou conforme esse outro objetivo com que ele foi usado. E ele tinha a parte de cima de uma batedeira de bolo, que também não foi criada por esse motivo. Mas aquele cara criativo pensou, vamos ficar com base na pergunta: “e se eu colocasse esse motor para fazer sexo, para usar a sexualidade com a parte da batedeira de bolo? Coloco um com o outro, aí coloco abacate, mamão, leite, açúcar etc., ligo o motor, ele liquidifica. Isso, então, posso batizar de liquidificador”.

Percebe? Duas peças que tiveram intimidade uma com a outra, se encontraram um dia nas mãos de um cara criativo, e aí nasceu esse objeto fantástico que é o liquidificador, que não foi inventado porque um dia alguém sentou e falou “agora vou inventar um treco que vai chamar liquidificador”. Não. Nasceu meio por acaso. As grandes ideias às vezes nascem por acaso. Ou seja, criatividade, sexualidade, têm tudo a ver. Acho que isso passa a ideia que eu queria passar, pelo menos por hoje.

 

CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS…

 

Não perca, na próxima semana, a resposta de Rubens Marchioni para a seguinte pergunta de Wlange Keindé!

Wlange KeindéOi, Rubens. Então, eu queria falar um pouco sobre essa divisão tradicional que temos entre um tipo de literatura considerada mais de valor, que agrada mais aos críticos literários, aos prêmios literários, e aquela literatura mais de entretenimento, que tem, segundo essa visão, uma maior chance de engajar um grande público. Você acha que essa é uma divisão que realmente é válida e, portanto, que os escritores, na hora de criarem suas obras, deveriam pensar em qual desses tipos de literatura querem escrever? Ou você acha que é possível chegar em um meio termo? Ou então simplesmente que essa é uma divisão que na ideia é ok, mas que na prática não se aplica realmente? O que você pensa sobre isso?

 

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